Notícia

Nuno Rogeiro

Santana à lupa

25.08.2018 17:05 por Nuno Rogeiro
Para quem tenha paciência para aturar os partidos, não se pode ignorar a nova aventura de Pedro Santana Lopes. Claro que é fácil apaixonar-se por ela, ou ridicularizá-la. O analista, porém, precisa de verificar os factos em detalhe. À lupa
Foto: Sábado

Foi no século passado. Almoço com o Vasco Pulido Valente e a Constança Cunha e Sá, a seguir a mais um Desmancha Prazeres.

O Independente tinha publicado uma manchete sobre o putativo novo partido de Santana Lopes, o PSL, e eu escrevera em O Diabo sobre essa hipótese, que me parecia uma viagem alucinogénia. Chamei à crónica LSD.

Verdade, mentira, boato, fuga propositada de informação? Na altura parecia-me que o pé dentro no sistema partidário tradicional era, para Santana, mais forte do que o pé fora. Por outras palavras, iria continuar tudo como dantes (no PSD), quartel-general em Abrantes, mas com declaração de voto e objecção de consciência permanentes.

Hoje é diferente. Mudaram as águas que passam debaixo das pontes. Mudaram as pontes. Mudaram as gentes que andam sobre as pontes.

Aos costumes devo dizer que sou amigo de longa data de Pedro Santana Lopes, que dirigimos em tempos difíceis um movimento académico, que - tendo despertado ambos para a política na adolescência - passámos a vida toda a discutir (sempre com paixão, nunca por compaixão) temas incandescentes, com muitos acordos e ainda mais desacordos pelo meio.

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Uma grande fronteira nos separa. PSL é um homem de partido e acredita nos partidos. Eu não.

Acrescento que, quando se deu o último combate de chefes no PSD, expliquei que, independentemente de considerações pessoais e reminiscências, PSL me parecia o homem certo para o sítio certo, na altura certa. Não desmerecendo das imensas qualidades de Rui Rio, entendi que, à partida, Santana tinha mais provas dadas nos momentos de ruptura e nas querelas decisivas.

O problema foi a campanha. Santana não revelou o seu melhor, não conseguiu sair de uma certa modorra pouco explicável, não agitou as águas, não evitou as rábulas, não mergulhou no essencial, não cativou a maioria do povo do PSD. Mais sóbrio, provavelmente menos brilhante, mas mais seguro, Rui Rio conseguiu demonstrar que era uma novidade, comparado com o adversário.

Podia PSL ter tentado continuar a ser a voz de uma facção dentro do PSD, como nos tempos de Marcelo e Cavaco? Talvez, mas deve ter chegado a uma altura da vida em que se cansou de falar nos corredores, ou em sessões de alternativa.

O seu novo partido, na crítica videirinha, é apenas uma nova partida pregada a Rio. Mas num reino diferente, representa, de certa forma, a libertação do santanismo.

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Possui este ideias autónomas para se afirmar, mesmo tendo em conta o paupérrimo estado dos partidos portugueses?

Pode ter. Santana dixit: "Somos um partido personalista, liberalista e solidário. Europeísta, mas sem dogmas, sem sentir qualquer cartilha e que contesta a receita macroeconómica de Bruxelas."
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Portanto, nada de "partido social liberal" (a miopia que se temia), mas antes uma espécie de mistura do PPD e do CDS originais. Mas também isto não é grande recomendação: o continente político de Santana só conquistou verdadeiramente o eleitorado com Cavaco, uma espécie de anti-Santana. O cavaquismo, como se sabe, foi sempre mais pragmático e populista do que "liberalista". E nem sabemos bem o que é isto.

O Aliança, cujo nome corre o risco de brincadeiras de mau gosto com massas e bolachas, espumantes, seguros e casamentos, pode, claro, querer cortar com o passado. Mas precisa então de encontrar uma gramática política totalmente nova. Ainda não a tem.

Uma gramática, claro, que corresponda aos novos desafios da sociedade nacional, e não seja um mero disfarce.

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O que falta em Portugal é a assunção de um projecto de identidade. Uma nação sem sentido é um mero país consentido.

O que falta em Portugal não é a velha receita da avozinha, o "liberalismo", mas a proibição clara de deixar o Estado transformar-se numa fraude, chamando "público" ao privado, e vice-versa.

E o Aliança carece de demonstrar que acrescenta algo ao PSD e CDS actuais, em vez de ser uma mera secessão.

Também isso não parece provado.

Ainda.

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Ver-se grego
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A Grécia saiu do resgate financeiro. Mário Centeno diz que o país pode voltar a andar "pelo seu pé". Mas que pé?

A economia local é hoje 25% do que era em 2006. O desemprego, apesar da descida face ao auge da crise, continua, entre os 25 e 29 anos, em 35%, e em 18% nos escalões mais velhos. Desde 2008 que emigraram 300 mil cidadãos, por razões de sobrevivência. Por outro lado, a actual ajuda só acabará de ser paga em 2060.

O mundo helénico não morreu. Mas o "estado social" falhou, as pensões foram pulverizadas, e as finanças serão austeras e vigiadas.

É que a dívida em relação ao PIB continua em 160%.

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Portugal não deve sorrir: a sua ronda os 130%, quando era de menos de 70% em 2005.

Quem tem medo do lobo mau?
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A senhora Le Pen é um ser pernicioso. Engana as massas com um "nacionalismo" de pacotilha e um falso "desalinhamento" face ao "sistema" de que faz parte. A máscara caiu na questão ucraniana.

Mas o que eu acho sobre a senhora é irrelevante. Quem deve prová-la certa ou errada é o eleitorado francês. E quem se dispõe a combatê-la deve estar preparado para defender ideias opostas, se as tiver.

Outra coisa é a censura. Esta é sempre a arma dos prepotentes, dos primários e dos medrosos.

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Os que em Portugal quiseram proibir Le Pen mostraram ser desses. E revelaram as suas origens: vistas bem as coisas, Trotsky criou a política bolchevique. Depois arrependeu-se. Mas foi tarde.

Lugares selectos
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Both Directions at Once, o disco outrora perdido de John Coltrane (na foto), é música de outro mundo. Já For Gyumri, de Tigran, tem piano, electrónica e visão. Em Scream for Me Sarajevo há história: o impossível concerto de Bruce Dickinson (Iron Maiden), em 1994, na cidade mártir, e então cercada, da Bósnia.

E ainda os 20 melhores álbuns da bossa nova, em nove CD, na New Continent. O que nos leva ao Brasil, e a um superlativo restaurante de praia de Portugal: chama-se Clássico, é gémeo de outras jóias do Rio, e fica na linha de S. João da Caparica. Cozinha diferente e exemplar, local (como um barco sobre o mar límpido) inacreditável, cocktails sábios, sofisticação e ambiente animado, mas repousante.


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