Notícia

Nuno Rogeiro

Requiem por Jan Palach

02.09.2018 17:00 por Nuno Rogeiro
Falar da esmagada Primavera de Praga, há 50 anos, é também recordar os comunistas portugueses dissidentes e resistentes, expulsos do partido, relembrar os que lutaram nas ruas contra os tanques, e nas empresas e escolas contra os comissários, e comemorar os que se sacrificaram por fidelidade à sua consciência. Como Jan Palach.
Foto: Sábado

Foi exactamente há 50 anos que o "comunismo" soviético esmagou a Primavera de Praga, através da Operação Danúbio.

Meio milhão de homens, 6 mil carros de combate e 800 aviões da URSS, Bulgária, Polónia, Hungria e, reticentemente, da RDA invadiram a República Checa para impor a paz dos cemitérios, cortesia do Pacto de Varsóvia.

Três meses depois, no princípio de Novembro, na mesma capital, não muito longe do cruzamento entre as ruas Zitna e Stepanska, o exilado núcleo do PCP na Checoslováquia reunia-se com o SG Álvaro Cunhal, no salão de uma ONG médica internacional.

Desencadeou-se aí uma tempestade, com militantes indignados face à repressão, a pedir ao partido a denúncia exemplar da ingerência do Kremlin numa nação soberana.

"Félix", um eslovaco que ajudou a organizar o encontro, falou-me em 1993, em Berlim. Lembrava-se do drama como se fosse ontem.

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Disse-me que os comunistas portugueses dissidentes se inspiravam precisamente na oposição albanesa, jugoslava e romena, "das entranhas do socialismo", ao acto imperial de Moscovo. Mas este fora santificado por Cunhal, o detentor da última palavra, em nome de um "bem maior": a "unidade" do bloco "anticapitalista" mundial.

A tese da direcção do PCP era simples: os tanques da URSS limitavam-se a impedir o avanço da "contra-revolução", apoiada pela "CIA e pelo imperialismo".

Claro que esta era também a versão do Kremlin, apesar de nenhuma cabeça coroada da burguesia ocidental ter levantado um dedo pelos resistentes de Praga.

E não nos esqueçamos de que houve cerca de 700 mortos e feridos civis.

A coragem dos comunistas que se opuseram a Cunhal tem de ser lembrada. Era bom que o PCP de hoje reconhecesse o delito de 1968, e reabilitasse os seus militantes.

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Em Janeiro de 1969, o estudante de História e Economia Política Jan Palach, de 21 anos, decide imolar-se pelo fogo, na Praça Venceslau, na mesma cidade ocupada de Praga.

Tinha seguido os protestos dos monges budistas contra a guerra do Vietname. Conhecia bem toda a literatura eslava sobre o sacrifício. Correu-lhe uma lágrima, que todos viram, quando comungou pela última vez antes do acto: no fundo, iria cometer um suicídio.
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Deixou uma carta, e, durante três dias de sobrevivência depois das queimaduras em 100% do corpo, explicou-se à interrogadora dos serviços de segurança.

"Porque fizeste isto?", perguntou a polícia, com voz embargada.

"Quis exprimir o meu protesto contra este estado de coisas, e despertar as pessoas", responde Palach, enegrecido e agonizante, mas com voz serena.

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"Portanto, querias revoltar a opinião pública?"

"Sim." A voz torna-se mais lenta.

"E como, concretamente?"

"Ateando-me fogo."

"Ateando-te fogo... Mas que é que esperavas mesmo alcançar?", continua a funcionária, quase maternal.

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"A abolição da censura e o bloqueio do noticiário Zpráv (boletim oficial da 'nova verdade' soviética)", responde Palach, com voz subitamente mais forte.

"Todos vimos o que fizeste. Mas o que é que isto significa?", continua a funcionária.

"Não queremos ser presunçosos" (tosse e murmura), "mas simplesmente temos de deixar de pensar demasiado em nós mesmos. O Homem deve lutar contra o mal com que pode lidar". A voz extingue-se.

José Valle de Figueiredo e Manuel Rebanda compuseram o seu Requiem por Jan Palach, canção que caiu mal na outra Primavera Marcelista, como um hino em que se sintetiza tudo isto.

O homem em chamas, como outrora o reformador João Huss, como os operários, estudantes, agricultores, artesãos e poetas da Moldávia, de Pilsen, da Eslováquia e da Boémia, sacrificava-se ali por uma questão de consciência.

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Esta semana, em Vilnius, ministros dos ex-estados invasores e invadido, e da Roménia, da Croácia e dos Bálticos, decidiram "uma cooperação reforçada na investigação e denúncia dos crimes dos regimes comunistas".

Começa a fazer-se justiça a Jan Palach e aos dissidentes portugueses.

Nacionalizações sem consequências
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A propriedade pública, de monumentos a edifícios protegidos, de jardins a praças, de ruas a avenidas, de centros sociais a outros serviços, é de todos. De certa forma, é um bem nacionalizado por natureza e evidência, e sem a opressão de uma doutrina.

Mas a verdade é que nunca vimos grandes campanhas das "esquerdas" nacionalizadoras, a favor da protecção da propriedade comum.

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Campanhas a favor da limpeza, do fim do lixo no chão, dos graffiti selvagens (isto é, fora do lugar e do contexto), da recolha ordenada de desperdícios, etc.

É como se essas "esquerdas" quisessem perpetuar os piores instintos da massa, com medo de a perder.

"Educadoras" noutras matérias, são aqui mais do que medrosas.

Lugar aos novos talentos
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Com poucas e honrosas excepções, os clubes de futebol portugueses continuam a gastar muito do seu orçamento em jogadores estrangeiros de valor mediano, ou na pré-reforma, ou rejeitados, ou em reciclagem. Claro que é preciso manter um circuito onde também há comissionistas e avençados, a coberto da necessidade "competitiva", embora cada vez compitamos menos, com sucesso, lá fora.

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Mas os mesmos clubes possuem, em geral, pérolas preciosas nas escolas de formação, incluindo em várias áreas-chave.

Os sócios deviam assim criar movimentos de fundo, para obrigar direcções e presidentes a uma quota obrigatória de jovens das academias - digamos pelo menos 50% - nas equipas principais. Vamos a isso?

Inspirados e inspiradores 
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Run, Boy, Run (Grappa), CD das Gurl, revela um vibrante quarteto de blues-jazz feminino. Já Sun Dew (Laborie), conduzido pelas cordas do duo Lefébvre/Audoynaud, é a maior descoberta recente da música dita "progressiva". Impressionante, impressionista, o grupo toca na Casa da Música do Porto, no dia 6.

E o mais antigo clube de jazz da nação, o Hot, reabre (6 a 8) com o sofisticado e lírico quarteto de Ricardo Toscano.

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Por fim, Aveiro. Chamar-lhe A Veneza Portuguesa é ridículo. Mas há um universo fascinante a descobrir ali, entre canais. E a 7 e 8 temos lá a nata da nossa vanguarda: Maria João (na foto) com os OGRE, Lokomotiv, João Hasselberg/ Pedro Branco, e Elisa Rodrigues. O evento? Sunset e Meia.


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