Notícia

Nuno Rogeiro

Missão possível

04.03.2018 17:00 por Nuno Rogeiro
Antes de decidir se deve aceitar missões militares de alto risco, e enviar para o estrangeiro, em nome do "interesse nacional", jovens combatentes portugueses, qualquer governo que se preze deve equipá-los com o melhor equipamento disponível. Não se poupa, em questões de vida ou de morte.
Foto: Sábado

Na altura de decidir o que fazer quanto a uma possível missão no Iraque, depois da invasão americana de 2003, Portugal não denunciou a falta de fundamento jurídico desta, nem a farsa das armas de destruição maciça inexistentes. Mas não deixou de participar - algo ambiguamente - na "coligação dos voluntários".

Face às dúvidas do PR Sampaio e às convicções do PM Durão Barroso, enviou a GNR em vez de forças militares. Como se isso fosse um sinal de protesto entendível em Washington.

E a verdade é que a GNR teve de fazer missões combatentes, e salvar forças especiais italianas em apuros, simplesmente
porque foi enviada para uma zona de intensa guerrilha. Quando a Guarda partiu, aprumada e preparada como sempre, teve de o fazer com veículos IVECO, comprados à pressa. Não lhe foi cedido um único blindado do arsenal das Forças Armadas. E havia aí meios mais adequados, numerosos e disponíveis do que os adquiridos.

Depois dos atentados no Bataclan, França fez um pedido simples a Lisboa: como tinha de reposicionar forças para o combate ao Daesh, precisava que ajudássemos, colocando oito instrutores militares no Mali.

Oito. Em tarefas não combatentes. E era urgente. Demorámos tanto tempo na burocracia, nas deliberações e na aprovação, que Paris bateu a outra porta.

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Tendo meios convencionais modernos, que precisam continuamente de ser testados e usados, Portugal poderia ter participado recentemente em muitas missões militares internacionais. O problema "político" é que se tratava de manobras... da NATO. E o potencial adversário era a Rússia. Daí que, após breves e extremamente bem-sucedidas acções dos três ramos, preferimos a "consensualidade" da ONU. É essa a génese do empenhamento na República Centro-Africana.

Salvo melhor entendimento, o "interesse nacional", nos termos do actual sistema constitucional, tem de ser definido pelo governo do dia, apreciado no parlamento e em última instância decidido pelo PR. Isso não exclui, obviamente, uma ampla explicação pública, e um debate nacional, que não prejudique a "urgência" e a "vitalidade" da missão: em última análise, é o executivo que se responsabiliza por estas designações.

Mas uma vez decidido esse "interesse" colectivo, há uma responsabilidade óbvia do Estado: fornecer aos contingentes que partem os melhores meios para realizar a missão.

O governo pode e deve negociar arduamente, com garra e cabeça, o financiamento operacional no estrangeiro, junto daqueles que pedem ou desejam as nossas forças.

Pensando bem, Portugal fornece o essencial: a vida e a coragem dos seus jovens, e o que gastou na sua selecção, formação, preparação e treino. O resto não deve ser um ónus nacional.

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Já não estamos nos tempos do "milagre de Tancos" de 1916, nem nas campanhas africanas de 1961-1974, em que tinha de se improvisar rapidamente, face à emergência.

Temos tempo para estudar as missões, antes de as aceitar. E, depois da anuência, não podemos "poupar" em equipamento: as forças nacionais destacadas precisam de ter o melhor, e não apenas o barato. Se os meios são impossíveis, a missão também deve ser.

A história recente ensina-nos que as operações da NATO são excelentes para usar submarinos, aviões de patrulha marítima, caças e viaturas blindadas modernas. Foi para isso que, com grande custo para o contribuinte, os comprámos. E as horas do seu uso, o seu combustível, munições, sobressalentes e manutenção, bem como novas aquisições e melhoramentos, deviam ser pagos pela Aliança.

Quanto às tarefas da ONU e da UE, que costumam traduzir-se numa vertente humanitária e político-militar, são também excelentes para adestrar tropas especiais e técnicas de actuação não convencional.

Mas nos dois casos é preciso não partir com remendos. E não hesitar, depois de aceitar.

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O tempo da dúvida metódica acaba quando as botas dos nossos operacionais tocam o chão, esteja este coberto pelo deserto ou pelo capim, pela água ou pelo gelo.

Da promessa ao embuste 

A utopia de uma cidade com pessoas e bens a mover-se eficazmente, sem poluição, devia ser A meta. Pensou-se que Lisboa se transformaria nesse paraíso urbano, com a promessa de pistas seguras para bicicletas.
O que temos, em troca? Arremedos de ciclovias, mal sinalizados, confusos, mas sobretudo, em demasiados pontos nevrálgicos, perigosos e mesmo catastróficos.

A verdade é que, em vez de rotas paralelas aos circuitos automóveis e pedestres, temos cruzamentos com estes, concorrência e permanente risco de colisão, em muitas artérias.

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Todos nós já presenciámos prelúdios de acidentes, que se tornam mais dramáticos porque há crianças, amiúde, entre os ciclistas.

Andam a brincar com o fogo.

Março: mês decisivo no eixo Berlim-Roma.

Merkel dirige um prolongado governo de gestão, mas sem drama: ao contrário de nós, aquele tem quase todos os poderes do executivo normal.
Mas, a propósito da possível "grande coligação", é bom que reflictam: a CDU renova-se, o SPD (que decide a 4) está sem líder, a abstenção e a Alternativa (AfD) crescem. Esta já é o segundo maior partido.

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Em Itália, tudo parece incerto e dividido: as sondagens dão 37,5% para o centro-direita; 26,3% para o Cinco Estrelas; 25,9% para o centro-esquerda.

Nas extremidades, o fascismo pós-moderno do CasaPound bate por uma décima o comunismo do PaP.
E há populistas em todos os grupos. Se o resto falhar, decidirão unir-se?

Maquinistas com alma 
Gnosis é o novo álbum de Lokomotiv, trio de portuguesíssimo (logo cosmopolita) jazz experimental. No contrabaixo, ora lírico ora marcial, Carlos Barretto (na foto), nas guitarras, abismais e inventivas, Mário Delgado, na percussão, José Salgueiro. Esta marca territórios com precisão, designa rumos surpreendentes, propõe miragens e âncoras.

Fazem 20 anos, notável num meio em que tudo se esfarela.

Suite da Terra, Silêncios, Lokomotiv, Radio Song e Labirintos são os outros CD desta máquina sensível, que explorou (sem roubar) o art rock , os folclores lusíada, mediterrânico e africano, free, música abstracta, minimalismo e serialismo (e também surrealismo).

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É preciso ouvir para acreditar.


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