Mata e esfola
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
10 de fevereiro de 2018

Mata e esfola

Estranho que o dr. Francisco George não consiga vislumbrar todas as consequências do seu argumento: se a eutanásia é um expediente útil para evitar o abuso médico de prolongar desnecessariamente a vida, como garantir que esse expediente não será exercido em sentido inverso, ou seja, para apressar desnecessariamente a morte?

a eutanásia está na rua – salvo seja – e Francisco George, ex-director-geral da Saúde, contribui para o debate com um argumento de peso. A morte assistida, diz ele, pode ser uma forma de proteger os doentes dos médicos. Segundo o dr. George, há profissionais do sector que prolongam artificialmente a vida dos moribundos contra toda a racionalidade. Este abuso, garante o próprio, é cometido em hospitais privados, por razões maléficas e óbvias: quanto mais tempo um desgraçado respirar, mais elevada será a conta final para a família.

Longe de mim contestar as palavras do dr. George: se ele conhece casos destes, só espero que os denuncie às autoridades. Só estranho que o dr. George, tão conhecedor da maldade humana, não consiga vislumbrar todas as consequências do seu argumento: se a eutanásia é um expediente útil para evitar o abuso médico de prolongar desnecessariamente a vida, como garantir que esse expediente não será exercido em sentido inverso, ou seja, para apressar desnecessariamente a morte?

Aliás, podemos até seguir o mesmo tipo de raciocínio que Francisco George aplica aos privados: se estes querem aumentar a factura, podemos questionar se, nos hospitais públicos, não haverá a tentação de a diminuir. Se aceitamos que um médico pode ser um delinquente (uma hipótese perfeitamente razoável), então temos de aceitar que há vários tipos de delinquência.
A história, como sempre, é a melhor conselheira. E o famoso caso do dr. Jack Kevorkian, nos Estados Unidos, chega e sobra para nos esclarecer – e horrorizar. No início, o dr. Morte assistia no suicídio dos pacientes, fornecendo-lhes meios para que eles se matassem. Com o tempo, e com a prática, e com a arrogância do poder, o nosso Jack começou a despachar o serviço com as suas próprias mãos. Um exemplo caricatural?

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