As fogueiras das vaidades
João Pereira Coutinho Politólogo, escritor
03 de fevereiro de 2018

As fogueiras das vaidades

Já tenho viagens marcadas para ver (pela última vez?) os quadros de Caravaggio (provável homicida), as esculturas de Cellini (violador afamado) ou as composições de Gauguin (machista, misógino, pedófilo) antes que os zelotes em fúria invadam os museus para destruir o recheio

Posso dizer uma palavra em defesa de Mário Centeno? Eu sei: não é normal que o ministro das Finanças peça bilhetes ao Benfica para ir ver a bola. Também sei: existe um código de conduta deste Governo que proíbe este tipo de benesses. E finalmente sei: as Finanças atribuíram duvidosas isenções de IMI à família de Luís Filipe Vieira.
Mas, aqui entre nós, o que leva um ministro a meter-se nestes sarilhos? Paixão pelo clube? Arrogância ministerial? Simples ingenuidade?

Avanço com uma hipótese: o filho. A ideia era ver a bola com o filho. E qualquer pai não resiste à tentação de ser um herói aos olhos da descendência. Sim, Centeno pode ser ministro, o Ronaldo do Ecofin e agora presidente do Eurogrupo. Mas de que vale tudo isto quando comparado com a possibilidade de levar o rapaz a ver o Benfica (de borla) na bancada presidencial?
Mário Centeno errou ao evocar razões de segurança para o acto. Bastava ter dito que tinha um filho adolescente – e o caso estava arrumado.

EM 2017, rebentou um movimento nos Estados Unidos com a missão meritória de denunciar e punir crimes sexuais. Nota prévia: acabar com esses crimes não é uma missão feminista, muito menos feminina. É uma causa que qualquer ser bípede, com funcionamento cerebral regular, entende e apoia.

Acontece que o espírito original despertou outros fantasmas pelo caminho. E um deles foi saber se é possível separar a "obra" do "homem", ou seja, se um homem vicioso (com as mulheres, mas não só) pode ser apreciado como um criador virtuoso.
Nestas matérias, repito o adágio: o que me interessa no artista não é o que ele é; é o que a sua obra nos revela sobre aquilo que ele gostaria de ser. Mas estes preciosismos perdem-se rapidamente entre a matula – e nem Portugal escapa.
Aqui há uns meses, lembro-me de uma minipolémica sobre Rentes de Carvalho. O escritor tinha declarado em entrevista que votaria Geert Wilders nas eleições holandesas. Foi o que bastou para que colegas de ofício declarassem publicamente que jamais voltariam a ler um dos seus livros, embora não tenham estendido o mesmo raciocínio para os livros do (comunista) José Saramago.

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