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Piadas de portugueses

03.03.2018 13:00 por João Pereira Coutinho
No interior das cadeias, guardas e reclusos habitam o mesmo inferno de violência e desumanidade. Isto, que faria as delícias de um sádico autoritário (de direita, claro), não perturba grandemente a sensibilidade "social" da nossa esquerda.
Foto: Sábado

Rui Rio quer namorar com António Costa? Faz mal. Rio devia tentar aproximações com o Bloco e o PCP. Bem sei que nenhum deles está interessado na proposta. Mas tentar não custa: em Portugal, e como bem notou Camilo Lourenço no Jornal de Negócios, um governo só sobrevive à degradação dos serviços públicos desde que tenha estas duas flores na lapela.

Um exemplo: o sistema prisional português está a cair aos pedaços. Faltam guardas. Há reclusos com doenças infecciosas que não são tratados nos hospitais. Há motins nas horas de visita, ao melhor estilo de Hollywood. Estes são os queixumes - do lado dos guardas.

Do lado dos reclusos, um comité europeu denuncia: celas esquálidas onde a rataria gosta de passear. E espancamentos de "boas-vindas" para uma clientela especial (os agressores sexuais). Curioso. Há falta de pessoal; mas, na hora do espancamento, ninguém foge à chamada.

Por outras palavras: no interior das cadeias, guardas e reclusos habitam o mesmo inferno de violência e desumanidade. Isto, que faria as delícias de um sádico autoritário (de direita, claro), não perturba grandemente a sensibilidade "social" da nossa esquerda. O poder faz milagres. O maior deles é sacar destes grilos falantes o precioso selo da normalidade.

Acreditar que António Costa prescinde deste selo para se entregar nos braços de Rui Rio é a grande piada do momento.

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Pena que o presidente não ria. Sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa deseja uma oposição forte ao PS. Porque isso é bom para o regime?

Seguramente. Mas as preocupações iniciais de Marcelo passavam pelas fantasias de um "bloco central", ou seja, de uma coligação de governo com sólido apoio parlamentar, capaz de diminuir o poder e a influência de Belém.
Afastado esse cenário, esperava-se que Marcelo serenasse. Não serenou. O que se compreende: a ameaça de uma maioria absoluta continua - mas a solo: com um PSD em guerra civil, António Costa pode passear até 2019 e recolher uma vitória confortável.

Eis a ironia da vida: até hoje, o Presidente conseguiu ocupar o centro da vida política, mantendo o governo com rédea curta. Mas é do seu próprio partido que vem a maior ameaça para uma ascendência inteligentemente construída.

Aqui há uns tempos, Adolfo Mesquita Nunes concedeu uma entrevista ao Expresso na qual, entre outras coisas, assumia o que nunca escondeu: a sua homossexualidade. Seguiram-se as reacções: aplausos (muitos), críticas (algumas). E depois chegou António Guerreiro, no Público, com uma interpretação que o próprio talvez imagine original.

Não discuto com Guerreiro o estatuto do homossexual na sociedade heteronormativa, assunto sobre o qual a minha ignorância e desinteresse são vastos. O artigo de Guerreiro só tem relevância por mostrar como, em 2018, no bicentenário do nascimento de Karl Marx, a caricatura marxista continua a fazer estragos em certas cabeças pensantes.

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Em dois textos, Guerreiro contesta a própria ideia de "aceitação" do homossexual. Por dois motivos: ela diminui o "aceitado" e engrandece o "aceitador". O primeiro deixa-se "normalizar" (a palavra certa seria "neutralizar") pelas "formas de existência dominantes", esquecendo-se de que a homossexualidade é "um discurso, uma fala, uma linguagem" (e talvez uma gastronomia, quem sabe). O segundo exibe uma virtude falsa e obviamente narcísica por "tolerar" o "gay" com ares de grande modernidade.

Trocado por miúdos: António Guerreiro ainda permanece na caverna marxista, onde a "luta de classes" serve para explicar tudo o que mexe - e em que o proletariado deu lugar ao homossexual revolucionário e subversivo, que não aceita os ditames de uma sociedade opressora. Nesse esquema mental, Adolfo Mesquita Nunes é um traidor de classe - uma espécie de Karl Kautsky gay - que se recusa a vestir o traje de Pasolini e a viver a sua "marginalidade" desafiante.

Que este pastiche ideológico continue a fazer sucesso entre nós, eis uma fatalidade que diz mais sobre o País do que sobre António Guerreiro.


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