Notícia

João Pereira Coutinho

Os rapazes do Brasil

08.09.2018 13:00 por João Pereira Coutinho
Se Bolsonaro é o rosto do autoritarismo, a maioria gosta daquele rosto. Dentro do aeroporto e fora dele: nas sondagens da praxe, e sem Lula na corrida, o capitão do exército vence o "primeiro turno". Pode vencer o segundo. Razões?
Foto: Sábado

Aeroporto de Brasília, 11 horas da manhã. Estou sentado junto à porta de embarque, à espera do voo para São Paulo. Subitamente, ouço gritos, aplausos, uma comoção geral que vai crescendo em intensidade. Que se passa? Cantor pop ou futebolista na área?

Engano meu. Olho para trás e o candidato presidencial Jair Bolsonaro é tomado de assalto por uma massa de gente em transe. Abraços. Beijos. Palavras de apoio. Selfies sobre selfies sobre selfies. Se Bolsonaro é o rosto do autoritarismo, a maioria gosta daquele rosto. Dentro do aeroporto e fora dele: nas sondagens da praxe, e sem Lula na corrida, o capitão do exército vence o "primeiro turno". Pode vencer o segundo. Razões?

Comecemos pelos adversários. Lula está na cadeia e na cadeia ficará. O PT, que desde a operação Lava Jato foi incapaz da mais leve autocrítica sobre as suas condutas criminosas, tem Fernando Haddad para oferecer. O ex-prefeito de São Paulo pode receber 50% dos votos que seriam para Lula, o que significa que Haddad nunca será Lula.
De resto, o centro-direita e o centro-esquerda não descolam. À esquerda, Marina Silva (da Rede) e Ciro Gomes (do Partido Democrático Trabalhista) jogam na segunda divisão. Marina é uma mistura de Gandhi com avatar: se fosse um livro de auto-ajuda, vendia bem. Como candidata, não vende. Ciro Gomes, pelo menos, é divertido na sua truculência adolescente. Mas um adolescente é um adolescente: não há um único tema político sobre o qual Ciro não tenha uma opinião e o seu contrário.

A esperança dos moderados seria Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo e médico anestesista, que tem aplicado ao eleitorado os mesmos procedimentos que reservava para a sala de operações. Eis a tragédia das democracias contemporâneas: não basta ser o mais sério e preparado; é preciso ter dotes de entertainer para não adormecer a plateia.

Reuters

Jair Bolsonaro é a expressão do esgotamento político e partidário brasileiro. Mas é também um caso clássico de "rebelião das massas", dispostas a chamar a caserna para punir a corrupção endémica do país e a violência demencial que provoca mais de 60 mil homicídios por ano. Quem chora agora chora tarde.

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A juntar a isto, é penoso assistir às entrevistas do candidato. Não apenas por causa dele - uma cabeça tosca, impreparada e perigosa. Por causa dos jornalistas que, cegos de ódio, são incapazes de confrontar Bolsonaro com as suas insuficiências "técnicas", digamos assim.

As perguntas, normalmente, oscilam entre a nostalgia pela ditadura militar, a sua alegada homofobia e as diferenças salariais entre homens e mulheres. Para o brasileiro médio, que teme pela vida, quer educação para os filhos e acesso à saúde em tempo útil, estas conversas, por mais nobres, são ruído de fundo. Mas a intelligentsia, que obviamente não aprendeu nada com o fenómeno Trump, continua em circuito fechado, a falar para o umbigo, indiferente à realidade que existe lá fora.

Essa realidade, no próximo dia 7 de Outubro, pode desabar sobre este país eternamente adiado.

O Brasil neste estado e morre Otavio Frias Filho. É uma dupla tragédia. Otavio Frias Filho foi director da Folha de S. Paulo durante 34 anos, cargo que assumiu em 1984, com apenas 27. Com ele, a Folha abriu-se aos opositores da ditadura militar, liderou a campanha pelas eleições directas para Presidente (as "Diretas Já" em 1983) - e, depois da redemocratização, Otavio lançou um dos mais profundos e modernos projectos editoriais que o jornalismo em língua portuguesa já conheceu, transformando a Folha no maior e melhor jornal do Brasil. A Folha, a sua Folha, teria de ser um projecto "crítico, pluralista, apartidário e moderno". Ou, na versão resumida, "um jornal impróprio para cardíacos".

Nestes 13 anos que já levo de Folha de S. Paulo, não consigo resumir em breves linhas o que aprendi com este homem singular - um jornalista, sim, mas também um dramaturgo e um ensaísta de génio (o seu Queda Livre, editado em Portugal, talvez merecesse uma reedição). Mas sei que não é apenas o Brasil que fica mais pobre. Escrever com a certeza de que o Otavio não estará do outro lado a ler-me - atento, desafiador, sardónico - é uma tristeza que levarei para a vida.
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