Notícia

João Pereira Coutinho

Zeros à esquerda

25.08.2018 13:00 por João Pereira Coutinho
Sem se aperceber, José Manuel Pureza, deputado do Bloco de Esquerda, confunde "moral" com "moralismo", como se fossem a mesma coisa. Não são.
Foto: Sábado

Não sabia que na venezuela também existe o Quem Quer Ser Milionário. Existe, vírgula: existia. Informa o The Times que o concurso foi cancelado. O prémio máximo era de 2 milhões de bolívares, qualquer coisa como 0,16 euros. É muito?

Não é. O papel higiénico custa 2,5 milhões de bolívares, o que significa que o feliz contemplado podia sair do concurso com o estatuto de milionário e, apesar disso, continuar a usar outros métodos para proceder à limpeza respectiva.

Mas o governo Maduro, que se julga vítima de uma conspiração internacional, tem a solução: o novo plano económico pretende, de uma vez só, eliminar cinco zeros de todos os preços. Uma galinha, que hoje custa 15 milhões de bolívares, será uma pechincha por 150.

Ao mesmo tempo, o salário mínimo sofrerá um aumento brutal (de cerca de 1 dólar para 30 dólares) e o banco central continuará a imprimir a nova moeda - o "bolívar soberano" - com a generosidade própria do socialismo.

O FMI, perante este cenário, antecipa uma inflação de 1.000.000% até final do ano, o que mostra bem a ignorância do pessoal de Washington: se retirarmos cinco zeros, a inflação será de apenas 10%. Perfeitamente tolerável.

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Aliás, a "Teoria dos Cinco Zeros", que devia merecer maior atenção do comité Nobel, pode ser aplicada à crise venezuelana como um todo. O país tem 24 milhões de pessoas em pobreza extrema? Não. Tem 240. Desde 2014 já fugiram do país 2,3 milhões? Não. A coisa não passa de 23. E a comunidade portuguesa no país ronda as 500 mil almas? Absurdo. São cinco gatos-pingados. Não admira que o nosso governo, para não assustar a extrema-esquerda, prefira poupar o seu latim com tão pouca clientela.

Já o Presidente, aqui entre nós, podia adoptar outro papel. Por exemplo, o papel higiénico: era só enviar cinco rolos para Caracas e, como diz a publicidade, fazer cinco excêntricos numa única semana.

Parece que o caso Ricardo Robles deixou feridas profundas no clube da sra. Catarina. Só isso explica que, um mês depois, alguns membros continuem a lambê-las em público.
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José Manuel Pureza é um caso: em texto para o Expresso, o deputado do Bloco procura explicar-nos o lugar da ética na vida política. O texto é estimável porque, sem se aperceber, Pureza confunde "moral" com "moralismo", como se fossem a mesma coisa. Não são. Ter uma "moral" significa pautar a existência, o discurso e a conduta por um conjunto de princípios éticos que podem ir do estimável ao aberrante. A moral de Maquiavel, autor que Pureza cita, pode ser "imoral" aos olhos de um cristão. Mas não deixa de ser um universo moral com espantoso grau de coerência.

O moralismo é outra coisa: é a instrumentalização da moral para ganhos pessoais e réprobas públicas. E, nesse sentido, a esquerda sempre sofreu desse mal genético. Os homens nasceram livres e encontram-se aprisionados em toda a parte?

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Assim falava Rousseau. Sim, o amante da humanidade que abandonou os filhos na roda. O moralista, em rigor, não possui uma moral; ele possui é uma intensa vaidade pela sua virtude presumida.

Fatalmente, essa virtude nunca é justificada pelo simples facto de que ela não pode ser justificada: os homens são fracos, falíveis, imperfeitos. E uma visita ao espelho, coisa que o moralista não faz, levaria qualquer um a moderar os seus sermões.

O problema de Ricardo Robles foi não se ter olhado ao espelho; foi ter construído uma carreira política a condenar a exacta "especulação imobiliária" que ele praticava em privado. É como aqueles moralistas de direita que acham a homossexualidade um crime - e, depois, têm um amante disponível para os fins-de-semana.

Isto significa que a moral não tem lugar na política? Pelo contrário: não concebo a política sem esse confronto de visões éticas plurais. Mas a única forma de haver esse confronto é pelo recuo do moralismo. É pelo abandono do palco onde o moralista gosta de se exibir e de envergonhar os outros com o tamanho da sua virtude.


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