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João Pedro George

O carrossel da moda

12.09.2018 09:00 por João Pedro George
A moda é um ciclo social contínuo que reúne a tendência aristocrática para a distinção e a tendência democrática para a imitação.
Foto: Sábado

Este mês de Setembro assinala os 100 anos da morte de um dos principais fundadores da sociologia: Georg Simmel (1858-1918). Quando dava aulas na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, Simmel era um dos autores que mais interesse suscitava nos alunos das disciplinas de História do Pensamento Social e Teorias Sociológicas: Os Clássicos.

Presumo que esse entusiasmo se devia ao facto de ele tentar perceber a sociedade a partir dos fios delicados e quase imperceptíveis que se tecem na vida quotidiana, às suas reflexões pouco ortodoxas sobre o papel, na vida social, dos segredos, das mentiras, das dissimulações ou dos mistérios; aos pequenos ensaios sobre a atracção estética pelas ruínas ou sobre o "pobre", a "prostituta", o "estrangeiro" ou as "sociedades secretas"; à análise sobre a vida mental dos indivíduos que habitam as grandes metrópoles, espaços caracterizados pelo ritmo febril das sensações e pela intensificação dos estímulos nervosos, daí a apatia, as atitudes marcadas pela indiferença, a reserva, o calculismo e, em geral, a não implicação afectiva (entre outras razões, porque em ambientes altamente competitivos, como as grandes urbes, revelar os sentimentos e as emoções mais íntimos pode ser perigoso e colocar-nos numa posição de desvantagem), mas também, por outro lado, a adopção de comportamentos excêntricos ou extravagantes (confrontados com o anonimato da vida urbana, os indivíduos são tentados a adoptar peculiaridades, a atrair a atenção sobre si próprios, a destacar-se da barafunda das massas, cultivando, como dizia Freud, o "narcisismo das pequenas diferenças"); ou ainda aos estudos sobre a influência dos cinco sentidos nas relações entre as pessoas, relações que estão constantemente a nascer e a desaparecer, que podem parecer fúteis, triviais ou pouco significativas ao observador que analisa as grandes estruturas, instituições e sistemas sociais, ou que está preocupado essencialmente em estudar problemas de grande escala, mas que também contribuem para formar a trama da sociedade e que não são menos importantes para a existência social dos indivíduos.

Esta microssociologia da vida quotidiana inclui ensaios sugestivos sobre as interacções que surgem a partir de contactos sociais tão subtis como uma mera troca de olhares. É no contexto desta "sociologia dos sentidos" que Simmel analisa a função sociológica da visão ou do olfacto nos processos de comunicação e no conhecimento que adquirimos dos outros através do exame do seu aspecto, da sua fisionomia e do seu cheiro. Este último (o olfacto), só para que tenham uma ideia, desempenha nas relações sociais um papel mais importante do que poderíamos pensar: cheirar alguém é a percepção mais íntima que podemos ter do outro e fornece uma base sensível para a selecção das nossas relações e para a determinação das nossas distâncias. Ou seja, o cheiro tanto pode ser um factor de aproximação como de distanciação social, de atracção como de repulsa. Simmel chega mesmo a tratar as relações de classe segundo o problema do olfacto, quando se refere ao "suor sagrado" do trabalho. É caso para dizer que a questão social não é apenas uma questão de moral, de política ou de economia, mas também uma questão de olfacto…

Simmel não ignora a existência de estruturas pesadas que permitem a reprodução e a coesão social, limita-se é a atribuir-lhes um estatuto comparável aos acontecimentos microssociais da vida quotidiana, às interacções múltiplas, fugazes e tantas vezes invisíveis que constituem também a essência das relações humanas.
Mentir, por exemplo, é tão necessário à sociedade e às relações entre as pessoas como dizer a verdade. O valor eticamente negativo da mentira não deve obliterar a função positiva que ela pode ter, do ponto de vista sociológico, na criação e manutenção dos vínculos entre as pessoas.

Miss Inês
O mesmo ocorre com os "segredos". Embora moralmente neutros, ou podendo mesmo ser associados a valores nobres (quando são conservados apesar da ameaça ou da aplicação de torturas ou de castigos), os segredos, além de conferirem um poder a quem os detém, pois a sua revelação pode destruir vidas, acabar com relações ou originar conflitos, permite-lhe, por um lado, ocupar um lugar à parte (já que o individualiza), e, por outro, exercer um fascínio sobre aqueles que o sabem possuidor de informações importantes e inacessíveis à esmagadora maioria. Eis uma das funções do segredo: a de servir de ornamento para aqueles que o possuem. O que, convenhamos, é estranhamente paradoxal, porque a essência do ornamento - "chamar a atenção" - é o oposto do segredo.

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A mor das vezes, o pensamento de Simmel parte de dualismos, de antinomias e de paradoxos, como no célebre ensaio sobre o carrossel da moda. Nesse texto, originalmente publicado em 1904, a moda é caracterizada como uma forma durável cuja razão de ser é a mudança constante, a dinâmica entre dois princípios antagónicos que, segundo ele, comandam o desenvolvimento histórico da humanidade: a distinção (ou especialização) e a imitação (ou generalização). Por outras palavras, a moda é um ciclo social contínuo que reúne a tendência aristocrática para a distinção e a tendência democrática para a imitação. A lógica é fácil de entender: para manterem e exibirem a sua distinção, as classes altas ou dominantes utilizam padrões particulares de consumo (vestuário, estilos de vida, etc.). Porém, assim que as classes inferiores começam a apropriar-se da moda e a imitar as classes superiores, estas abandonam-na para adoptarem uma nova que as distinga das massas e lhes permita continuar a ostentar a sua diferenciação social, relançando assim o carrossel da moda. Veja-se o caso do consumo de pão. Na Idade Média, o pão branco era sinal de prestígio, quanto mais baixo na escala social, mais escuro era o pão ingerido. As classes altas olhavam para o pão preto ou castanho com aversão, ao ponto de considerarem que os seus estômagos não conseguiriam suportá-lo. Com a Revolução Francesa, uma das reivindicações do povo foi, justamente, o acesso ao pão branco. Assim se explica que, no século XIX, o consumo de pão branco se tenha generalizado, tanto mais que muitos lhe chamavam o "pão da classe operária". Imediatamente, o pão escuro subiu de preço e foi adoptado pelas classes altas.

Há vários problemas que podem ser colocados a esta abordagem, a mais importante das quais é que parte do princípio de que aqueles que estão na base ou no meio da estrutura social querem sempre imitar os grupos do topo da hierarquia, além de esquecer que as modas podem também ter origem nas classes mais baixas e ser imitadas por elementos das classes mais elevadas (como aconteceu com algumas culturas musicais, casos do reggae ou do rap, ou com certos estilos de arte urbana, como os grafitis).

A terminar esta evocação do centenário de um autor talvez pouco conhecido da maioria dos leitores, mas cuja leitura recomendo, uma curiosidade bibliográfica: a primeira versão para português e em Portugal de uma obra de Simmel data de 1969 e intitula-se Cultura Feminina. A introdução era assinada por uma escritora que viria a ser julgada pela sua colaboração na edição das Novas Cartas Portuguesas (processo das Três Marias): Natália Correia.


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