As lições a tirar da pandemia
Eduardo Dâmaso Director
29 de abril de 2020

As lições a tirar da pandemia

Se não estivermos todos juntos, seja na forma de enfrentar o vírus, seja na de fazer política e um escrutínio público do que os Governos fizeram ou não, ficaremos mais perto do precipício coletivo do que da porta de saída destes dias terríveis para o mundo

Como em todas as grandes ruturas históricas, também nesta pandemia é quase infinito o potencial de mudança que ela comporta nos domínios da política e da sociedade. A mais evidente é a grande possibilidade que aqui nasce de transformar as políticas públicas de saúde no objeto de um vasto consenso político e social, em particular a construção de serviços nacionais de saúde fortes, bem financiados e bem avaliados. A defesa do Serviço Nacional de Saúde é um património ideológico da esquerda? Historicamente, sem dúvida. Mas vão perguntar aos conservadores ingleses e à liderança de Boris Johnson o que pensam disso. O desastre inglês e o norte-americano no combate à pandemia representam verdadeiros vírus revolucionários, que se esperam benignos nesta nova estirpe. Autênticos sismos políticos, capazes de levar largas faixas das opiniões públicas destes países a pedirem políticas públicas sérias em áreas como a saúde e a educação, uma e outra alicerces centrais de valores democráticos como a igualdade de todos nas oportunidades e no respeito pela dignidade humana.

Mas num plano menos ideológico, esta crise também nos remete para a capacidade e competência da governação dos países. Uma coisa é o necessário consenso e união para enfrentar a crise sanitária no momento em que estamos no olho do furacão. Outra bem diversa seria abdicar de fazer política, dando-lhe o seu sentido mais nobre, e não escrutinar o que aconteceu nos três meses mais diabólicos das nossas vidas. E aí, o consenso emergente é que ninguém se preparou a sério para a tempestade. Pior: a Europa olhou para a expansão do vírus de forma absolutamente eurocêntrica, como sempre, acreditando que, mais uma vez, este vírus seria um "problema chinês", tal como já tinham sido a gripe das aves, ou um "problema africano", como foi o ébola.

A Europa e o resto do mundo desenvolvido criaram uma incompreensível cortina sanitária, de contornos até um pouco xenófobos, aqui e ali, em relação às emergências sanitárias epidémicas, relacionando-as com a pobreza e o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo ou diferenças culturais de outros povos. Por isso, acumulamos décadas de desinvestimento na ciência em geral e na investigação em saúde, em particular. Ou entregámo-la alegremente aos grandes blocos industriais da saúde e a mecenas como Bill Gates, repousando a consciência coletiva numa definição de prioridades políticas na matéria que quase já nem passa pela decisão dos Governos. É como se fosse um território de outros, que não os países soberanos, as suas democracias, as suas instituições e os seus povos.

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