A maior crise do século
Eduardo Dâmaso Director
23 de abril de 2020

A maior crise do século

Não tenhamos ilusões. Nenhum país aguenta tanto tempo parado, muito menos Portugal, que tem uma economia débil, vínculos laborais muito precarizados, uma grande fratura social e económica e níveis de rendimento individual que estão na cauda da Europa

Uma das características da crise que vivemos é a radical modificação do tempo histórico. O passado recente parece que foi há décadas e o presente vive-se a uma velocidade insustentável. Para já não falar naquilo que hoje se pode considerar futuro. O futuro que queremos é depois de amanhã, já não é no sentido clássico de ser um tempo projetado muitos anos, décadas à nossa frente. Quem se lembra do que aconteceu em fevereiro? Alguém se lembra do que se discutia na política caseira? Vagamente a incerteza de ver viabilizado o Orçamento do Estado e de ter uma crise política pela frente. Muito vagamente a eutanásia e as guerras de alecrim e manjerona entre a direção do Livre e a deputada Joacine Moreira. O Luanda Leaks e uma frente de esquerda parlamentar contras as comissões da banca. Mas, para chegar lá, é necessário pesquisar um pouco. Instantaneamente, apenas ficaram as penas de Isabel dos Santos. Enfim, era o tempo antes de coronavírus, o novo A.C. do nosso calendário. Mas isso era em fevereiro. Alguém se lembra que foi no dia 2 de março que a OCDE publicou as suas primeiras previsões sobre os efeitos da pandemia e para os cenários que elas apontavam? Na realidade, já passou uma eternidade.

Por esse março longínquo na nossa memória coletiva, a OCDE previa uma quebra de 0,5% no crescimento mundial da economia e excluía um cenário de recessão. O cenário não era ainda pandémico e todas as análises estavam centradas na ilusão de que o coronavírus estava confinado à China e dificilmente afetaria o resto do mundo. Onze dias depois tudo mudou. A OMS decretou a pandemia, o vírus galopou o planeta e em 15 dias submergiu a Europa na sua maior crise pelo menos desde a II Guerra Mundial. É, sem dúvida, a maior crise deste século mas, muito provavelmente, a dos últimos dois séculos e meio, como afirma Adam Tooze, um prestigiado historiador britânico, da Universidade de Colúmbia, para quem a velocidade e a magnitude deste furacão económico é algo "nunca visto debaixo do Sol".

Quando chegamos às previsões do FMI, na semana passada, onde não vai já a escalada dos números… Quando a esmagadora maioria dos países ainda está de quarentena e alguns prepararam um regresso lento à normalidade possível, a previsão mais negra do FMI, que admite a possibilidade de uma nova onda do vírus no próximo inverno, aponta para uma caída do PIB mundial na ordem dos 8%. Na versão mais otimista, se tudo correr um pouco melhor, a quebra do PIB mundial será de 3%. Ou seja, não morremos mas ficamos num estado de paralisia económica e social por demasiados anos.

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