Os sprinters da pandemia
Ângela Marques Jornalista
20 de maio de 2020

Os sprinters da pandemia

Lá fora, metade do mundo está numa fila qualquer, a outra metade está a correr – mas a correr realmente

O romantismo pode estar fora de moda, ser uma tecla partida de tão batida ou até sinal de açúcar a mais no sangue, mas a árvore à frente da minha janela não quer saber. Já com a pandemia a decorrer, ela fez o que faz todos os anos: mal começou a ver sol transformou braços franzinos e despidos em ramos musculados e verdes que fariam inveja ao Hulk – provocando-me um KO técnico com esta coisa doida do ciclo da vida a acontecer. Alertas e últimas horas, emergências e calamidades? Ela não tem pressa, ela sabe que tudo passa.
O que ela não sabe é que um destes dias me pôs a pensar nos sprinters da pandemia. Sempre que não estou aqui a olhar para ela de lado estou a correr para fazer alguma coisa na rua. Na minha ingenuidade achava que era assim que o mundo estava a lidar com isto. Sem ver companheiros de guerra, imaginava-os em dois modos no campo de batalha: quietos nas trincheiras ou a correrem para voltarem a ficar quietos nas trincheiras.
Descobri, com perplexidade, a partir da janela do meu carro, que não é assim. Lá fora, metade do mundo está numa fila qualquer, a outra metade está a correr – mas a correr realmente, de leggings, sapatilhas de corrida e fitas na testa para trancar o suor. No meio da distopia, os segundos já quase me partiram o pescoço. É que, graças a eles, inventei um novo jogo: descobrir em três a cinco segundos quantos já teriam corrido 10 metros que fosse na vida.
A pandemia fez isto, à parte das outras atrocidades: pôs meio mundo a correr para apanhar ar. O que acontece é que a maioria acabou a apanhar do ar, sem saber como é que pés, costas e pulmões conversam durante uma corrida que lhes tira o fôlego.
Esta semana, quando uma amiga me contou que ela e o namorado tinham começado a correr, pedi-lhe que não tivesse pressa e andasse. Falei-lhe do perigo em que punha os joelhos do casal e do risco que corriam aqueles corações apaixonados. Ela que andasse, que fizesse como a minha árvore. Porque tudo passa – e não tem mal que algumas coisas nos ultrapassem.

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