Notícia

Carlos Rodrigues Lima

Se o Jean Jacques Rousseau...

06.09.2018 09:00 por Carlos Rodrigues Lima
Vamos ser sérios: podemos descarregar a nossa ira sobre os "chicos-espertos" de Pedrógão quando houve milhões dados nas PPP aos privados, um ex-primeiro-ministro que vivia à Marquês, um ex-ministro que recebia do BES e a nata do tecido empresarial que fugiu ao fisco?
Foto: Sábado

A tragédia desperta-nos os sentidos. Capta-nos a atenção, comove, mobiliza mesmo os habituais indiferentes. A proximidade da tragédia cria ainda um desconforto, uma espécie de revolta pessoal perante o acontecimento, acordando sentimentos que podiam estar há muito em hibernação, como a solidariedade. A tragédia de Pedrógão Grande, em 2017, catalisou tudo o que há de melhor no ser humano. Inclusivamente, no português. Houve empenho, mobilização, ajuda, conforto às vítimas, exigência às autoridades públicas para uma resposta atempada e generosa. Foi como se estivéssemos num outro Portugal, mais preocupado com o próximo do que prisioneiro da sua própria bolha.

As revelações sobre a "chico-espertice" que decorreu durante a fase de reconstrução do concelho foram, por tudo o que já foi escrito, alvo de forte repúdio e censura. Afinal, a solidariedade foi aproveitada por meia dúzia de rapazes para reconstruir e modernizar casas de férias, segunda habitações, palheiros e, talvez, casotas para o cão.

A questão é: as pessoas de Pedrógão merecem censura quando não fizeram mais do que colocar em prática o ancestral "esquema", "jeitinho", "cunha", "desenrascanço" à portuguesa? Vamos censurar uns tipos que viram uma "janela de oportunidade" para construir a casa de sonho, quando gritamos alto e bom som - mesmo perante as evidências - que um antigo primeiro-ministro é inocente até trânsito em julgado da decisão do tribunal? Vamos censurar os "chico-espertos" de Pedrógão quando os representantes do Estado abriram as torneiras do dinheiros público nas Parcerias Público-Privadas para os grupos privados? Vamos censurar o tipo de Pedrógão que meteu o projecto para erguer uma casa onde havia um palheiro quando um antigo ministro da Economia recebia uma propina mensal do Banco Espírito Santo? Vamos censurar o casal que vive em Lisboa e reconstruiu uma casa de férias em Pedrógão quando, em Janeiro deste ano, soube-se que o fisco desistiu de cobrar 125 milhões de euros à Brisa? Vamos censurar o "espertalhão" de Pedrógão quando, durante muitos anos, a chamada nata do tecido empresarial português desviou mais de 100 milhões de euros devidos ao fisco, só os devolvendo quando a Operação Furacão lhe bateu à porta? Vamos censurar os velhotes de Pedrógão quando, há bem poucos anos, funcionários da Segurança Social, Finanças, médicos, administradores de insolvência, antigos directores-gerais e até um casal de juízes da Relação de Lisboa terão recebido dinheiro para encontrarem a melhor solução para os seus "clientes"? Vamos censurar a rapaziada de Pedrógão quando o Tribunal Constitucional, esse garante do Estado de Direito, deixou prescrever milhares de euros em coimas a partidos e dirigentes políticos por infracções à lei do financiamento?

Enfim, tudo o que aconteceu em Pedrógão durante a reconstrução não é um fenómeno novo mas, para desgraça deste País, a manutenção de um modo de vida português, cujo grande objectivo de vida é "sacar" ao Estado, ao mesmo tempo que se lhe exige tudo e mais alguma coisa. Os "chico-espertos" de Pedrógão devem ser investigados até ao tutano, para se perceber se cometeram crimes, assim como os responsáveis pelos organismos públicos pelo processo de reconstrução devem ser alvo de processos de averiguações internos, de modo a determinar se houve desleixo, incúria ou mesmo conluio em todo o esquema. Porém, se isto é o que objectivamente se exige de um País confrontado com um "escândalo" desta natureza, também é verdade que, em defesa dos prevaricadores de Pedrógão, se pode invocar uma velha piadola: "Se o Jean Jacques Rousseau, porque é que eu não posso roçar também?"


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