Notícia

Carlos Rodrigues Lima

Obrigado, Passos Coelho

02.03.2018 07:00 por Carlos Rodrigues Lima
Passos Coelho saiu de cena e sucederam-se os "Obrigado, Passos Coelho". Afinal, que herança deixou o antigo primeiro-ministro? Simples: o regresso à marmita na hora de almoço e um grupo parlamentar de jovens revolucionários inspirados em Luís Montenegro
Foto: Sábado

Quem já foi a um aniversário de uma criança com certeza que já reparou: há sempre um puto, que não o aniversariante, a fazer tudo e mais alguma coisa para chamar a atenção. Foi este o papel de Luís Montenegro no Congresso do PSD, encontro que deveria ter servido para entronizar Rui Rio, mas que Montenegro decidiu atrapalhar, como referiu posteriormente a costumeira análise política, ao "posicionar-se" para o futuro.

Luís Montenegro
José Eduardo Agualusa explicou, na Granta de Outubro de 2013, este fenómeno: "Quando estamos em cima de um palco, as pessoas reparam em nós. É para isso, afinal, que servem os palcos." Com um palco à vista, Luís Montenegro não perdeu a oportunidade, apesar de aquela não ser a sua festa.

Hugo Soares
Bastou aquele momento para Montenegro, uma das heranças de Pedro Passos Coelho, inspirar 32 deputados brancos e 21 nulos do seu próprio partido, que decidiram manifestar toda a sua concepção de democracia e participação eleitoral activa na eleição para líder parlamentar. Já esta semana, o jornal Público dava conta de um artigo da revista Nature, no qual se concluiu que, afinal, a adolescência pode durar até aos 24 anos. Se os investigadores tivessem tido mais atenção ao contexto português, facilmente concluiriam que, além de ultrapassar a casa dos 20, o adolescente português pode até chegar a deputado do PSD, devidamente inspirado por Luís Montenegro, como é óbvio.

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Pedro Passos Coelho
Dizia ainda o Público que a "adolescência é um momento único de sintonização e amadurecimento do cérebro". E que, neste período das nossas vidas, "assiste-se, por exemplo, à afinação das sinapses (as ligações entre os neurónios), que se reduzem entre a infância e a idade adulta". A votação em Fernando Negrão reflecte, precisamente, isso: a malta ainda está em período de afinação mental.

Nos dias a seguir ao Congresso, foram vários os comentadores que se entretiveram em textos laudatórios para Passos Coelho: O "Obrigado, Passos Coelho" foi o mote para vários artigos na imprensa, elogiando o papel do antigo primeiro-ministro nos anos da crise económica e como, segundo os comentadores, tirou patrioticamente Portugal da bancarrota.

Rui Rio
Uma análise mais cuidada, porém, leva a outras conclusões. Para retirar Portugal da crise bastou a Passos Coelho – através do tal, convém recordar, "enorme" aumento de impostos – reintroduzir a marmita no quotidiano dos portugueses. Uma medida só ao alcance dos génios, como Passos Coelho, que acabou com aquele pequeno prazer de ir "comer qualquer coisa a algum lado", fazendo com que as pessoas redescobrissem o prazer da cozinha, cimentassem os laços familiares na confecção das refeições e dessem cabo de umas boas horas ao fim -de -semana a preparar o menu.

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Em suma, a herança de Passos Coelho resume-se a isto: a marmita da hora de almoço e o grupo parlamentar do PSD, saído das eleições de 2015, aquelas que foram ganhas pelo líder do PSD, mas que entretanto as perdeu. Mais uma vez, um génio, portanto. Porém, Passos Coelho, apesar da frustração de 2015, viu mais longe do que qualquer pessoa: com uma população a caminhar para o envelhecimento, Passos deixou no grupo parlamentar um grupo de jovens irreverentes, com ganas para mudar o mundo, uns revolucionários de centro-direita-esquerda (no PSD, o melhor é incluir todas as hipóteses), que apenas precisavam de um ícone, uma inspiração. Por isso, acabam por ser incompreensíveis os sucessivos elogios feitos ao anterior primeiro-ministro, que – também convém recordar – queria ir além da troika e só não terá vendido ao estrangeiro o ar que se respira em Portugal, porque houve um rapaz em Fátima que se antecipou e que, há alguns anos, enfia o barrete aos estrangeiros (esperemos que só a estes) do "ar de Fátima" devidamente enlatado.


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