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Bruno Faria Lopes

Casas: cá e lá, todos falam do mesmo

05.03.2018 14:59 por Bruno Faria Lopes
Nas eleições islandesas o preço das casas foi tema de campanha, na Eslováquia há avisos de bolha, na Alemanha há quem faça couchsurfing enquanto procura casa. O boom imobiliário não é só uma história portuguesa. Está por toda a parte e é um efeito secundário do combate à crise
Foto: Sábado

"Amesterdão faz regressar preços da habitação na Holanda ao pico de 2008." "Há preocupação sobre serviços como o Airbnb (…). Os húngaros estão cada vez mais interessados em investir em apartamentos que podem ser arrendados, para ganharem mais do que noutros tipos de investimento." "Espanha: boom, rebentamento, e boom outra vez." "Está a Irlanda em perigo de criar outra bolha imobiliária?" "O mercado na Alemanha está ao rubro, mas não lhe chamem uma bolha." "Investidores em França alimentam receios sobre bolha imobiliária." "A República Checa parece ser líder nas subidas de preços, motivadas pelas taxas de juro baixas e pela falta de opções alternativas de investimento." "Bolha na habitação na Suécia prestes a rebentar."

Estes são títulos e excertos de artigos publicados na imprensa internacional nos últimos seis meses. A lista é infindável e, olhando para o gráfico nesta página, percebe-se porquê: não é só em Portugal que a subida dos preços das casas está a dar que falar. É em toda a Europa (e fora dela). Os dados do gráfico dizem respeito só aos 12 meses entre o terceiro trimestre de 2016 e de 2017 – puxando mais atrás veríamos enormes aumentos acumulados em praticamente todos os países, incluindo na Alemanha e em França. Na pequena Islândia, que leva anos de boom turístico, a loucura nas casas está de volta. (Com bancos de rastos e proprietários que foram adiando a venda na crise para depois começarem a fazer descontos em massa, Itália é uma excepção.)

Há uma história comum a esta exuberância internacional. O fio condutor do argumento é uma política monetária sem precedentes, arriscada pelos bancos centrais na tentativa de tirarem as economias da crise.

As taxas de juro historicamente baixas têm posto muita gente – grandes fundos e pequenos investidores, estrangeiros e nacionais – a escolherem o imobiliário como fonte de rendimento. Os estrangeiros, com destaque para os chineses, têm sido especialmente relevantes – no sobreaquecido mercado de Vancouver, no Canadá, os chineses representam um terço do valor das transacções. Em países como o nosso, com programas de atracção de capital estrangeiro (vistos gold e isenção fiscal para residentes não habituais), a relevância estrangeira, e chinesa, é notória.

Os juros baixos são também um pilar da recuperação económica global, da descida do desemprego e do aumento do consumo. Há mais dinheiro para comprar e arrendar uma casa – e para viajar. Nunca houve tantos turistas no mundo: 1,32 mil milhões de pessoas dormiram pelo menos uma noite fora em 2017, um salto anual de 7%. Atrás do turismo vem o investimento em imobiliário, ampliado por inovações tecnológicas à volta do velho conceito de alojamento local.
O que fazer de tudo isto? Estamos perante uma bolha europeia que ameaça a estabilidade financeira ou há apenas excessos regionais? Nem todos os casos são iguais e há conclusões para todos os gostos.

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Em vários mercados a dimensão da subida seguiu-se a pontos baixos nos preços (Portugal, Espanha, Irlanda) ou em indicadores como o rácio preços/rendimentos das famílias (na Alemanha), o que põe em perspectiva uma parte da subida. Depois, há países com diferenças grandes entre cidades. E há outros (nórdicos, Centro e Leste da Europa) em que já há um ano os bancos, Bruxelas ou a OCDE alertavam para uma febre alta.

Certo é que este fenómeno – que gera vencedores e vencidos, que impulsiona a economia e que em toda a parte coloca dilemas às políticas públicas – é continental. Lá fora como cá dentro está tudo a falar do mesmo: os preços das casas. E se não há consenso sobre se existe bolha então é porque há risco – palavra que deve merecer a atenção de investidores e decisores públicos.


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