Notícia

Ângela Marques

Os que nos servem

07.09.2018 09:00 por Ângela Marques
Se eu vi as borboletas na barriga, a novidade, o carnaval que para ali ia, não pude ver nem vislumbrar o que aconteceu depois.
Foto: Sábado

Quando o vi de ralador na mão, fiz o que faço sempre que fico tensa: pensei no pior, desejei o melhor e deixei para o destino resolver. Aparentemente, para o chef, aquela barriga de atum que acabara de aterrar no meu prato estava a pedir um pouco de neve de muxama do mesmo. Com o ralador em riste, ele era um chef e um bailarino ao mesmo tempo. De tédio os clientes deste restaurante não morrerão, pensei, enquanto um batalhão de empregados me rodeava, cada qual com o seu caldinho (para não falar de vinho).

Quase um Nureyev, ele fazia daquela sala um palco - e eu só esperava que o pano caísse para o aplaudir. Na mesa ao lado, porém, o espectáculo parecia não estar a criar água na boca. Um rapaz que tinha deixado o skate em casa e vestido uma camisa para a ocasião e um mulherão que, num tributo a Chris de Burgh, tinha tirado o vestido vermelho do armário estavam mais preocupados com a encenação do seu romance do que com a arte do menu prestes a ser servido. Deixei-os: eles não viam a hora de mudar de roupa.

Mas se eu vi as borboletas na barriga, a novidade, o Carnaval que para ali ia, não pude ver nem vislumbrar o que aconteceu depois: quando o chef se preparava para de novo fazer nevar em pleno Verão, a mulher de vermelho entendeu que tinha uma chamada para fazer. Enquanto o chef falava - apresentando a muxama e suas virtudes -, ela tentava falar com alguém (e lá, lá, longe). Senti por eles e lamentei por todos.

Ontem, com fome de música, sentei-me a outra mesa. Do menu de degustação fazia parte um set de MPB. Olhando quem tinha aparecido para prestigiar a festa, tirei a fotografia da tarde: nem o maior borboletário do mundo os desviaria daquele espectáculo. As DJs, misto de chefs e coreógrafas, estavam a servir um menu cheio de estrelas. Quando me preparava para as aplaudir, vi que, na mesa ao lado, já lhes elogiavam o engenho. De troco, elas agradeceram. Eu? Lembrei-me da outra noite e não pude deixar de pensar: é tão artista o que serve como aquele que sabe ser servido. 


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