Notícia

Ângela Marques

As casas que não podemos ter

02.03.2018 07:00 por Ângela Marques
Chuva que molha todos, um trânsito que só não incomoda tolos e nós a querermos fazer de uma tasca uma sala de estar.
Foto: Sábado

Chuva que molha todos, um trânsito que só não incomoda tolos e nós a querermos fazer de uma tasca uma sala de estar. O momento era solene, pelo que pedimos um bacalhau à Brás e umas ervilhas com ovos escalfados e comemos do prato uma da outra. Frente a frente, defesas em baixo e imperiais ao alto, tínhamos um contrato para assinar.

A história daquele contrato tinha começado uma vida antes, numa alínea que descrevia bem a nossa amizade: as duas contraentes comprometiam-se a entrar numa relação sem pedras na engrenagem, com muita farinha do mesmo saco e fermento para o que desse e viesse – como a amizade e a vida devem ser.

Face a face, eu só queria saber se ela estava feliz e assinaria de cruz. É que a história daquele contrato tinha tido já muitos reveses – estamos em Lisboa, em 2018, e as casas acabaram. Há sempre alguém que conhece alguém mas, no fim, por causa das contas, Lisboa é um deserto. Quem pode vicia o jogo e quem quer jogar tem de aceitar as regras do Monopólio.

Lembrei-me que há oito anos estive no lugar dela. Quis arrendar uma casa e uma amiga assinou por baixo. A cidade era outra, ainda aqui se podia viver, e se aquela casa era tudo o que eu queria, aquela amizade era o que eu nem sabia que queria. Hoje, quando troquei de papel, descobri porque é que tive aquela sorte. Quando nos despedimos e ela lamentou o dinheiro que vai perder, a vida de que vai abdicar e o sono que isso lhe tira, disse-lhe: "Se for preciso vamos roubar." Ela riu-se.

Saímos para a chuva e para o trânsito, "obrigada" para aqui, "que disparate" para ali e seguimos para mais um dia. Lembrei-me dos GNR e de uma letra que nunca entendi tão bem. A minha amiga nem se chama Maria mas por ela eu também roubava a caixa das esmolas.

pub


pub
pub