O emigrante
Vítor Sousa Escritor e poeta
16 de janeiro de 2018

O emigrante

Alguma coisa correu mal e eu demorei a morrer.

Alguma coisa correu mal e eu demorei a morrer. Gerou-se alguma azáfama e comoveu-me aquela solicitude dos rapazes, bons rapazes que se fizeram à vida. Tive tempo para ouvi-los. Estavam de férias e acumulavam trabalhos para pagar a faculdade. Um estudava Filosofia, o outro Medicina. Havendo trabalho aqui, não hesitavam. Pagavam bem. Eles reviam procedimentos, assustados com a espuma que se me avolumava nos cantos da boca até formar uma grande bola no meio que ameaçava os olhos. Tudo isto acontecia enquanto eu via através do vidro uma criança a apurar a técnica do balão. Tinha lido sobre devaneios dos agónicos, a alma a pairar sobre o próprio corpo, as digressões pelos lugares felizes, o arrependimento a matar muito. Comovi-me ainda mais ao perceber que o delírio me devolvera ao adro da velha igreja. Vencia o jogo quem conseguisse fazer o melhor homem-aranha, um balão tão grande que pregasse a teia de pastilha elástica entre os olhos e o queixo. Eu ganhava quase sempre até descobrirem que a minha técnica infalível era batota. Só valia uma pastilha elástica e eu tomava nosso senhor já com outra sob a língua. À bola de espuma juntavam-se lágrimas, suor e outras manifestações do corpo que não vou descrever por embaraço. Era um evento aberto ao público e o corpo deveria conter-se. A partir de um momento, o que mais me preocupava não era acabar, mas acabar assim, papa fétida. Efeitos previsíveis, dizia o doutor que procurava sossegar os rapazes, bons rapazes.

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