Notícia

Vítor Sousa

O emigrante

16.01.2018 16:49 por Vítor Sousa
Alguma coisa correu mal e eu demorei a morrer.
Foto: Sábado

Alguma coisa correu mal e eu demorei a morrer. Gerou-se alguma azáfama e comoveu-me aquela solicitude dos rapazes, bons rapazes que se fizeram à vida. Tive tempo para ouvi-los. Estavam de férias e acumulavam trabalhos para pagar a faculdade. Um estudava Filosofia, o outro Medicina. Havendo trabalho aqui, não hesitavam. Pagavam bem. Eles reviam procedimentos, assustados com a espuma que se me avolumava nos cantos da boca até formar uma grande bola no meio que ameaçava os olhos. Tudo isto acontecia enquanto eu via através do vidro uma criança a apurar a técnica do balão. Tinha lido sobre devaneios dos agónicos, a alma a pairar sobre o próprio corpo, as digressões pelos lugares felizes, o arrependimento a matar muito. Comovi-me ainda mais ao perceber que o delírio me devolvera ao adro da velha igreja. Vencia o jogo quem conseguisse fazer o melhor homem-aranha, um balão tão grande que pregasse a teia de pastilha elástica entre os olhos e o queixo. Eu ganhava quase sempre até descobrirem que a minha técnica infalível era batota. Só valia uma pastilha elástica e eu tomava nosso senhor já com outra sob a língua. À bola de espuma juntavam-se lágrimas, suor e outras manifestações do corpo que não vou descrever por embaraço. Era um evento aberto ao público e o corpo deveria conter-se. A partir de um momento, o que mais me preocupava não era acabar, mas acabar assim, papa fétida. Efeitos previsíveis, dizia o doutor que procurava sossegar os rapazes, bons rapazes.

– Nada a fazer, é esperar. 10/15 minutos. É chato, rapazes, cheira mal, mas acontece. Depois é preciso limpar tudo, porque todos ao fluidos dão prova de vida. Uma merda. Aprendam a lição.

O corpo nunca quer morrer. Reage, protesta, escoiceia. Vejam como as pernas dele estão tensas. São espasmos. Fizeram um bom trabalho, rapazes. Se os membros não estivessem bem afivelados, vocês estavam bem fodidos. Já montaram um touro? Agora imaginem o que é montar o touro só naquele cubículo, pré-arena. A porta não se abre, qualquer coisa falhou, como falhou aqui. São segundos. A besta salta, atira-vos para os lados e para cima, mas não o suficiente para que voem sobre as tábuas. Vocês só querem continuar sobre o dorso da besta e descobrem nos vossos dedos, dedos de um homem em pânico, garras ferozes quando os cravam nas tábuas em busca da fuga, mas escorregam por um dos flancos. O resto devem imaginar. Estão sob as patas da besta. Kaput. É uma trituradora, pa-pa-pa. Era isso que aconteceria se o gajo não estivesse bem afivelado. Não há super-homens que sobrevivam a um assalto com esta besta que ia bater, bater e bater até morrer. Evoluímos muito, rapazes. Já vi esse espetáculo há uns anos. Tínhamos de testar o erro e aproveitámos um zé-ninguém, um
daqueles que desaparecem da esquina e a esquina continua como se nada. Não apertámos muito os membros. Saímos da sala. Tínhamos criado um circuito entre a sala contígua e a veia do sacana. Correu tudo bem. O gajo rebentou as correias num ápice, que força de Deus. Fez ricochete em todo o lado, deu cabo da cadeira aos pontapés, socos e cabeçadas. Foram 5
minutos a vê-lo lutar contra Deus e o diabo. Cheguei a ter algum receio quando ele malhou tanto no vidro à prova de bala. Rachou-o, deus do céu. Uivava como se parisse a morte. Partiu as mãos e continuava a esmurrar. O mais engraçado foi a causa da morte. Deu tanta cabeçada no vidro até que caiu. Morreu primeiro com traumatismo craniano profundíssimo. Só morreu da injecção depois, digo-vos eu porque fiz a autópsia. Riem-se? Mesmo depois de morto duas vezes, o corpo continuava a reagir. Como se morrer fosse percurso académico, entendem? Já vi mortes por equivalência, mas este jubilou-se. Fui o único a entrar na sala. 5 minutos depois e pronto, não mais se mexeu. Encomenda aviada para nosso senhor ou para o inferno, sei lá. Foi um dia glorioso para a medicina. Agora é muito raro matar mal, mas importante é matar. E eles morrem sempre. Este não vai ser excepção. Têm de saber lidar com estas contingências. Somos humanos, acontece. Quando ele acabar o que veio fazer a este mundo, chamem o pessoal da limpeza. Ninguém sai sem limpar esta cagada. Pago eu a rodada.

Fui bem condenado. Subversivo. No meu país, não há injecção letal. Deixaram-se disso. Um homem só pode inventar sobre a experiência dos condenados, o corredor da morte, as insónias em madrugadas de saias verdes e felizmente há luar, os passos dos guardas que fazem a ronda da noite com as chaves nas grades como quem prega os últimos sons, a visita do capelão que leu Camus e sempre dá para rejeitar Deus com ares de literato. No meu país, não era tido nem achado. Uma tristeza, uma miséria. Os meus amigos dizem o mesmo, mas estão mais acomodados. Ainda há um ou outro que viaja, traz um trauma que dura um mesito, dois se esticar bem a coisa, mas soa a falso. Talvez uma rusga na alfândega por um acaso da sorte, interrogatórios com chazinho quente que um homem desesperado despeja no colo a ver se algo acontece e é um ai jesus diplomático, promessas de ser tido e achado, visto de clandestino temporário que não dá para regressar com um poema autêntico. Tudo falso. Eu decidi emigrar.

A coisa deu-se depressa. Vi notícias sobre um encontro de colegas que acabou em saudosismo. Dois desapareceram, houve manifestações, grande comoção popular. Um encanto a forma como recuperaram a ambiência clássica das revoltas. Versos como palavras de ordem, mal ditos mas ditos, tarjas, um ou outro megafone e um kit de barbas de velho resistente que o
‘Museu do Não’ cedeu. Não é fácil resgatar todo o fervor da indignação, mas notável o esforço. Enviei uma carta, registada e com aviso de recepção, a requerer asilo politico naquele país. Justifiquei-me. Expliquei que saudava a paixão com que ali se vivia a poesia, o sentido estético do regime que insiste, orgulhosamente só, em ameaçar, amordaçar, perseguir, processar e condenar poetas. Uma sensibilidade vintage que admitia julgamentos sumários, processos absolutamente inquinados que ressuscitavam poetas secos há anos. Escreviam sobre pressão. Era obrigatório deixar pelo menos um poema, como eles dizem, ‘para Caronte'. ‘Para Caronte', céus. Fez-me recordar a erudição com que se escandiam ossos como versos na Comissão das Lágrimas. Maravilhoso.

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Demoraram um pouco a aceitar o meu pedido, mas empenharam-se muito para que eu recuperasse o tempo perdido. Todas as noites, sem falta, havia um carro junto ao meu prédio. Um homem magro, alto, cara chupada, perfeito aspecto de sabujo, de filho da puta, casaco comprido e chapéu de abas largas. Fumava durante horas, dentro e fora do carro. Até me arranjaram um amigo bufo com quem podia conspirar. Foi numa dessas conversas que nasceram os versos da grande glória, ser condenado por escrever versos. "Solidão maior / é não ter / sequer / a quem trair". O meu amigo bufo apressou-se a propagar os versos. O regime raptou-me durante a madrugada. Esperaram que tivesse barba de três dias, tudo muito profissional e conforme as melhores práticas dos grandes déspotas. Já tinha acumuladas na secretária várias folhas com escritos em forma de poema. Eram só palavras que atirava em fluxo de consciência, sem nexo mas com a condição de corresponderem à estrutura clássica do poema. Não valia a pena o esforço de tentar o poema. Já sabia que os homens que me raptariam eram quase analfabetos, uns brutos cuja única missão era maltratar e queimar papéis. O regime enalteceu a minha colaboração e concedeu-me a hipótese de escolha. Hesitei entre o charme dramático de um pelotão de fuzilamento com armas estragadas e a injecção letal. Optei pela injecção quando explicaram que precisavam de formar algozes, pelo que eu poderia contribuir para que a poesia fosse punida com aquela malvadez que se perdeu. O erro dos rapazes estava previsto pelo doutor com quem falei. O relato anterior deverá assemelhar-se, espero, ao que aconteceu. O regime garantiu que a imprensa clandestina iria cobrir o acontecimento e que até já haviam iniciado contactos com editoras subterrâneas do meu país para que a minha obra completa fosse publicada. Se correu bem, os meus amigos já devem estar a fazer as malas.


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