Tiago Andrade e Sousa Licenciado em Direito e Gestor
03 de dezembro de 2016

Mas ninguém diz nada?

Fora algumas honrosas excepções, parece reinar nos media nacionais a mensagem de que Portugal está no bom caminho

Fora algumas honrosas excepções, parece reinar nos media nacionais a mensagem de que Portugal está no bom caminho.

Também pelas sondagens recentes (devo confessar que nunca em 44 anos de vida fui sondado por qualquer empresa de sondagens) a ideia que passa é que tudo está bem.

Andava relativamente descansado não fosse uma recente conversa com um grande amigo de infância, assíduo observador de política e economia nacional, que me dizia o seguinte:
"Olha, aproveitei o fim de semana passado para fazer algumas contas para confrontar a realidade com as sondagens. Ora vejamos o que se passou lá em casa: O gasóleo subiu. Em Dezembro de 2015 o litro valia 1,08€; em 31.10.2016 custa 1,20.

Nas poucas vezes em que este ano me aventurei a "apanhar" o metropolitano com as minhas filhas cheguei meia hora mais tarde ao trabalho e temi pela minha integridade física dado o "apinhar" de gente que se acotovelava para apanhar uma das poucas carruagens que passou em 50 minutos de espera. Bilhetes nas máquinas=zero.

E sabes que a conta do almoço não diminuiu? Vociferavam que a redução do IVA na restauração promoveria mais emprego e a conta no final da "bucha" seria menor. Na minha rua fecharam 2 cafés. Os resistentes não desceram os preços."

Atordoado, tentei apelar: "mas olha que na educação parece que as coisas melhoraram". Responde-me ele: "anunciaram em alta voz que os livros escolares passariam a ser mais baratos ou mesmo gratuitos. Os livros escolares dos meus filhos aumentaram outra vez este ano. Entre livros e material escolar, paguei mais 25 euros do que no ano passado.

E sabes tu o que me disse o meu irmão na semana passada?" Fiquei em silêncio. "Mais um ano sem turma. A escola tem menos 15% de alunos do que no ano passado. Ontem ligou-me a dizer: "mesmo sem turma vou passar a professor efectivo".
Parece que o Estado vai integrar mais 70 mil "precários".

Sem mais, continuou: "e sabes que o preço da água em Lisboa teve um aumento médio de 6% durante este ano? Com taxas e taxinhas, onde antes pagava aproximadamente 30€ já vou nos 70€."

Ao tentar por água na fervura, adiantei: "mas olha que em termos sociais…" nem pude chegar ao fim… pois voltou a tomar a dianteira: "Um colega meu recebeu por herança um pequeno prédio com 3 arrendatários do "antigamente". Preparando-se para levar por diante um conjunto de aumentos que permitissem fazer obras de reabilitação no imóvel, viu-se confrontado com "nova moratória" para os arrendatários mais antigos que, como é óbvio, já abandonaram as negociações. O Governo terá prometido financiar os senhorios por forma a que acomodassem este tipo de rendas. Mas passámos nós a ser a Santa Casa? Mas a casa é minha ou do Estado? Eu é que tenho que fazer arrendamento social?"

E digo eu: "mas olha que na saúde…". "Na saúde?" Responde-me ele. "Aventurei-me na marcação de uma consulta de pneumologia através do SNS. Resposta: março de 2018. Está tudo dito, não está?"
Fiquei sem palavras.

"E no país em geral?" Pergunta-me o meu amigo. Eu respondo: "parece que as coisas serenaram".

"Aí sim? Os juros a 10 anos a tocar os 4% e dívida no recorde de 133%. O défice de 2016 conta com vendas de aviões usados à Roménia, dividendos do BdP como nunca antes visto e de libertação de garantias do BPP." "E tu achas que serenaram?"

Acreditando nas contas do Governo, continuamos a ter um déficit anual de aproximadamente 2%. Continuamos a gastar mais do que produzimos. Mas vamos aumentar pensões, dar entrada a mais gente na administração publica, descongelar carreiras e não realizar uma única reforma do Estado.

E sabes tu que o número de jovens desempregados ou inactivos aumentou na comparação entre trimestres este ano?. São mais de 300 mil (!).

Respondo: "mas…..". Ele continua: "qual mas ou meio mas". "A fábrica das bolachas Triunfo fechou e 100 trabalhadores acabaram no desemprego. Em Santarém, fechou a Unicer com 70 trabalhadores. Sabias?" Respondo que não.

"Não se ouve ou lê sobre qualquer novo grande investimento estrangeiro em Portugal.

E tu dizes-me que está tudo sereno?"

"E as pensões?" Diz-me ele. "Das simulações que andei a fazer terei que trabalhar até aos 80 para conseguir receber alguma coisa que seja, alguma coisa que valha os mais de 60 anos de trabalho que terei que perfazer. A resposta da Geringonça é que não é preciso reformar a segurança social. Andamos nós (na casa dos 40) a trabalhar para pagar as actuais reformas. Chegando aos 66 …Chapéu."
Sindicatos remetidos ao silêncio. Opinion makers idem.

Silêncio ensurdecedor? Ninguém se indigna?"

Eu respondi: "pois….".

E desde esta ultima conversa que não paro de reflectir sobre o meu País, presente e futuro.

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