Notícia

Sofia Martins

Houve um tempo em que todos estavam vivos

21.06.2018 10:43 por Sofia V. Martins
Houve um tempo em que todos estavam lá, nos seus lugares. Enchendo um passado de vida. Houve um tempo em que a morte não era cenário, porque a vida parecia eterna.
Foto: Sábado

Houve um tempo em que todos estavam vivos. Os risos, as conversas. As danças. As descomposturas, as discussões tão engraçadas de assistir. Os mergulhos no mar, os passeios pela praia. O jogo do prego. As longas horas a jogar às cartas. As batatas fritas enroladas na areia. Os concursos, os desfiles, as brincadeiras. Os almoços tardios. As uvas que chegavam à praia num balde verde água. As longas conversas que ocupavam um espaço tão particular, um mês por ano, em Agosto.

Houve um tempo em que todos estavam lá, nos seus lugares. Enchendo um passado de vida. Houve um tempo em que a morte não era cenário, porque a vida parecia eterna.

Mas ela foi chegando, lentamente. Temida, silenciosa. Devastadora. Levando quem nunca será esquecido. Velhos e novos. Novos demais. Nunca estamos preparados para que os lugares de uma vida percam as suas referências. Não estamos preparados para que um dia aquilo que considerávamos eterno, mude drasticamente. Fica o jogo do tempo que nos desafia a viver o melhor possível.

Dou comigo com uma vontade louca de correr pelo areal da minha história, rumo a esse passado intocável, sendo quem sou hoje. Visitando cada pessoa. Curando cada ferida. Abrindo o meu coração para revelações que não pude ter. E apercebo-me que o passado constrói-nos de acordo com as memórias que decidimos guardar.

Então resolvo olhar as minhas impotências de frente. Umas vezes de cabeça erguida, outra tapando os olhos. Umas vezes sorrindo, outras chorando. Umas respirando fundo, outras tremendo dos pés à cabeça. Mas sempre, olhando-as de frente. Pego então nas minhas conquistas e procuro espalhá-las sobre mim para que novas cores surjam e outros brilhos encaixem nesses cantinhos que tanto precisam deles. E acredito que tudo vai correr bem. Que cada um de nós parte no momento em que tem partir. Não queiramos saber mais do que isso.

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As tradições tornam-se preciosas quando as perdemos. Guardam-se os cheiros, as vozes, os sorrisos, as expressões. Guarda-se os rostos, os abraços, as partilhas. Secam-se as lágrimas e nascem novos sorrisos, preenchidos de memórias que nos orgulhamos de ter. E abrimos novos capítulos com outros espaços e outros tempos. O resto da história ainda está por escrever.


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