Notícia

Sofia Martins

A utilidade de não ter utilidade alguma

28.02.2018 10:46 por Sofia V. Martins
A imagem que está a circular nas redes sociais de uma criança síria a tapar os olhos da boneca, para não ver o horror à sua volta, está a comover o mundo.
Foto: Sábado

A imagem que está a circular nas redes sociais de uma criança síria a tapar os olhos da boneca, para não ver o horror à sua volta, está a comover o mundo. Trata-se de um murro no estômago que nos tira do sítio e nos faz pensar, nem que seja por momentos, no que podemos fazer para acabar com toda esta violência. Apetece-nos pegar naquela criança ao colo, trazê-la para casa, dizer-lhe que connosco passará a estar em segurança.

Estas fotografias absolutamente arrasadoras têm o condão de puxar pelo melhor de nós. Ninguém fica indiferente ao sofrimento de uma criança. Pergunto-me se os soldados sírios ficarão, se forem obrigados a olhar demoradamente para elas, bem nos olhos. Nelson Mandela diria que não. Mas a terrível constatação é que a guerra na Síria e todas as guerras do mundo que causam tanto sofrimento em seres indefesos como crianças e animais, parecem longe de acabar.

E isso cria em cada um de nós um misto de angústia, desespero, tristeza, misturado com uma frustrante sensação de impotência. Queremos ajudar, mas não vemos como o podemos fazer. E provavelmente continuamos com as nossas rotinas, procurando apagar de nós aquelas imagens.

Mas será que não podemos realmente fazer alguma coisa à nossa escala?

A partir do lugar onde estamos, não conseguimos salvar aquela criança. Mas podemos refletir mais na forma como estamos a viver. A utilidade que damos aos nossos dias. A relação que estabelecemos com os outros. As demonstrações de afeto que vamos adiando. Ao darmos o nosso contributo para uma sociedade mais generosa e humana, estamos também a evitar que novos monstros nasçam, capazes das maiores atrocidades. Somos úteis quando transmitimos valores, ensinamos o reconhecimento e a empatia. Somos úteis quando colocamos os nossos talentos ao serviço da sociedade.

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Se um dia tivemos a possibilidade de nascer, foi para acrescentar alguma coisa a este mundo. Mais do que procurarmos avidamente ser felizes, a nossa vida deve valer a pena. Então sim, a felicidade advém dessa noção de que aquilo que fazemos é importante.

Há uns tempos assisti a uma cena curiosa; Uma adolescente dirigia-se apressadamente ao banco, próximo da hora de fecho, com um saco de plástico transparente carregado de moedas pretas. Preparava-me para seguir o meu caminho quando a ouvi soltar um grito: o saco tinha rebentado, as moedas estavam a espalhar-se pela estrada, enquanto ela segurava a cabeça com as duas mãos, completamente desesperada. "Eram as minhas economias.", gritou, com os olhos cheios de lágrimas. Dirigi-me a ela e resolvi fazer o que podia naquela altura. Armei-me em polícia encaminhando os carros para contornarem aquele espaço. Quando me virei, dou com homens, mulheres, jovens, avós e netos, todos de cócoras a apanharem moedas, por entre gargalhadas e conversas. Já tinha aparecido um novo saco. E em pouco tempo, a rapariga, visivelmente maravilhada e feliz, tinha o seu dinheiro de volta. Fiquei a observar a expressão sorridente das pessoas enquanto se afastavam. Olhámos uns para os outros com cumplicidade. Naquele momento, tive a certeza de que a utilidade não precisa de nada mais do que estarmos atentos.

Esta história não parece ter utilidade alguma diante do pesadelo que acontece na Síria. Mas acredito que, de cada vez que saímos do nosso umbigo e olhamos para nós como pessoas competentes para construir um novo mundo, estamos a chegar a algum lugar realmente importante.

Então podemos olhar para aquela criança e prometer-lhe que vamos dar o nosso melhor para que nenhuma outra tenha de passar por situações tão dolorosas. E enquanto nos comovermos com estas fotografias, há esperança. Que seja mesmo ela a última a morrer.


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