Notícia

Raquel Serejo Martins

Quase Palpável

18.12.2017 07:00 por Raquel Serejo Martins
Há dias fiz o mesmo caminho que fizemos. Lembraste? Caminhámos lado a lado sem dar as mãos. Temos tanta dificuldade em dar as mãos.
Foto: Sábado

Há dias fiz o mesmo caminho que fizemos.

Lembraste? Caminhámos lado a lado sem dar as mãos.

Temos tanta dificuldade em dar as mãos.

Bem sei que não é suposto sermos vistos de mãos dadas, mas estávamos longe, muito longe, in a kingdom far far away, como nas histórias para crianças, longe do teu mundo, longe do meu mundo.

Falámos de cinema e de livros, falámos de todas as histórias, menos da nossa história.

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Só não falámos do tempo.

E estava um céu tão interessante, cinzento chumbo, baixo, quase palpável, mesmo como eu gosto. Pois, não sabias.

Qual é a minha cor preferida? Rápido, sem pensar!

Cinzento. Estás a ver, não sabias.

Depois de falarmos de tudo, sem falar de nós, sentámo-nos num banco do jardim. Primeiro lado a lado, o meu corpo longe do teu, far far away, três palmos mal medidos, e olhos postos no rio, as mãos arrumadas.

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Se alguém perdesse dois minutos a olhar para nós ficaria com dúvidas, estão ou não juntos, mas ninguém perdeu dois minutos a olhar para nós.

As pessoas só perdem tempo a olhar para os outros nas felicidades e nas catástrofes, inveja ou pena, mas só um é pecado mortal.

Mesmo nós não perdemos dois minutos a olhar para nós, apenas temos olhos um para o outro.

O que é que eu faço sem teus olhos?

Até que a distância se tornou insuportável, e sem aviso desaguei no teu colo, eu em estado líquido, os teus braços à minha volta redondos e côncavos, como paredes de aquário, tu a segurar-me dentro de ti.

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Eu às voltas no teu peito, uma tempestade dentro do teu peito capaz de virar todos os barcos, eu, meu porto de abrigo, dentro de ti.

Os teus dedos a afastar-me o cabelo dos olhos e a arrumá-lo com critério no armário atrás da minha orelha, os teus lábios na minha testa, no meu nariz, o teu cheiro, o compasso do teu coração, os meus olhos fechados.

Até que hoje, talvez porque estava o mesmo céu cinzento de chumbo, baixo, quase palpável, fiz o mesmo caminho.

De um lado o jardim, com os bancos de jardim, do outro lado o Tejo.

Os bancos de jardim com vista para o Tejo. Os meus olhos apenas para os bancos de jardim. Até que reconheci o nosso banco de jardim. Sentei-me a olhar para o Tejo e para as gaivotas, a verdade é que não eram gaivotas, mas não sei como chamar-lhes, e quando não se sabe inventa-se, não foi assim que nos ensinaram em pequenos, far far away.

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Estive sentada cinco minutos, não mais.

Cinco minutos e a insuportabilidade da tua ausência.

Até que dez metros depois, também não sei se foram dez metros, far far away, quando não se sabe inventa-se, reconheço outro banco de jardim como o nosso banco de jardim, o que se repete dez metros depois, de repente todos me parecem iguais, e sinto-me infeliz e quase ridícula por me sentir infeliz e por não conseguir mostrar a mim mesma o nosso banco de jardim, porque todos os bancos de jardim me parecem iguais, e pergunto-me como é possível, se o nosso amor foi tão diferente.


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