Notícia

Pedro Duro

No mais, que tudo te corra bem

05.09.2018 10:28 por Pedro Duro
Maria Adelaide Coelho da Cunha tinha 48 anos quando deixou o marido, porque se apaixonara pelo motorista cerca de 20 anos mais novo. Trocou o bem-estar lisboeta de uma família privilegiada pela fuga para uma aldeia.
Foto: Sábado

Maria Adelaide Coelho da Cunha tinha 48 anos quando deixou o marido, porque se apaixonara pelo motorista cerca de 20 anos mais novo. Trocou o bem-estar lisboeta de uma família privilegiada pela fuga para uma aldeia. Poder-se-ia dizer que fez a troca fácil: um homem mais novo e fogoso. Mas não era. Podia tê-lo mantido amante, beneficiando das prebendas da sua condição. Não foi esse o caminho.

Ninguém quer jazer na mágoa do enjeitado marido, ou mesmo na humilhação pública da época, que correu os jornais há quase cem anos. Mas o que sobressai deste episódio é a ideia de bolha. A bolha do conforto individual, do tu e eu, e a bolha fora da bolha, a bolha ao serviço de um conforto (nem sempre genuíno) de um grupo dominante.

No livro "Doida não e não!", de Manuela Gonzaga, é notável perceber o que acontece a Maria Adelaide, interditada com a perícia de gigantes da altura: Júlio de Matos, Sobral Cid e Egas Moniz… Tudo tem o seu contexto. Naquele contexto, o vazio dos fundamentos da interdição talvez se conseguisse conceber. Hoje, não estou a ver como passaria.

A bolha fora da bolha pressionou e tentou destruir a individualidade, apenas porque não se sentia confortável com ela. Mas não conseguiu, porque a verdade é que só não se avança porque não se quer. A bolha fora da bolha transforma-se e dilui-se sempre que as pequenas bolhas não se escondem, não desistem, não deixam de ser por causa do parecer dos outros. Foi assim com as bolhas dos escravos, das mulheres, dos homossexuais, dos que vestem outras roupas, dos que não deixam de ser por causa de ninguém (desde que não sejam contra ninguém). Mesmo quando não nos sentimos confortáveis de acordo com os nossos padrões ou desejos. Há que deixar cada um ser, ainda que o ser de cada um não seja o que eu queira, espere ou, até, anseie.

Por isso, escrever sobre "o amor e outros demónios", a interpelação de uma criança, as perplexidades da meia-idade masculina, a esperança e a falta dela, é escrever também sobre Direito e direitos, publicidade e intimidades, ser-se por si e estar-se com os outros.

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"Coisas que já não poderei dizer à minha filha" e as demais crónicas de setembro de 2017 têm em si tudo o que me levou a escrever crónicas-sobre-coisas-que-não-interessam-a-ninguém-porque-interessam-a-toda-a-gente-e-a-Sábado-deixa-me-publicar. Um em si que se perdera antes da primeira crónica, mas que se prolongou no sem sentido de querer fazer sentido, nessa desistência da desistência.

Não se escreve sobre algo, mas para alguém, nem que seja para nós.

Por isso, quando me perguntam «por que escreves estas coisas que nem parecem de um tipo como tu?» (a que "tipo" se referem, já agora?), só tenho a dizer: porque me apetece. Não vejo outra razão para comunicar que não seja, simplesmente, querer comunicar.

Há tempos para tudo. Este terminou em junho, altura em que escrevi esta crónica. Porém, seria lógico que me despedisse no fim de um ciclo anual, agradecendo a todos os que leram sobre o que toda a gente sabe e a quem entendeu que trazer à revista essa banalidade de ser continua a fazer sentido.

Termino dessa forma que os amigos sabem que "para a próxima" poderá ser nunca: no mais, que tudo te corra bem.

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Pedro Duro


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