Notícia

Pedro Duro

Lagoa Azul

05.03.2018 16:13 por Pedro Duro
"É muito deprimente este imaginário do «ela-vai-reparar-em-mim-porque-não-lhe-resta-mais-nada». Mas, para quem sonha nada mais interessa. Caímos muitas vezes nessa tentação: no trabalho, nos projetos de vida, na política, no amor. "
Foto: Sábado

E lá estávamos nós, adolescentes, com uma inusitada curiosidade para a matiné que se anunciava no fim de semana. De quinze em quinze dias, íamos a casa. Mas, pelo meio, os fins de semana eram passados no Seminário. E era apenas ao fim de semana que a televisão se ligava regularmente. Entre as 13h30 e as 15h00, ao sábado, e entre as 13h30 e as 17h, ao domingo. Excecionalmente, dias de competições europeias de futebol, jogos de seleções ou alguma transmissão religiosa poderiam permitir ligar os aparelhos noutros dias e horários. Mas, seguras, seguras, eram as matinés de sábado e domingo. E ali estávamos nós, à descoberta de uma alternativa à vocação que nos fazia viver naquela casa: a anunciada programação do filme «Lagoa Azul», com a Brooke Shields a dizer-nos que o tema estava longe de estar fechado.

O filme em causa alimentou muito um estranho imaginário masculino: o recorrente sonho do náufrago. Nada como irmos parar a uma ilha apenas com a eleita do nosso coração, ainda que a mesma não tivesse logo percebido que connosco é que era, que tudo o resto era ilusão de contexto. No sítio certo, onde dominaríamos ferozes felinos, construiríamos cabanas e apanharíamos peixes com uma lança, tudo seria evidente para a distraída sereia.

É claro que ninguém põe a hipótese de apanhar uma alergia no primeiro dia, ficar com as entranhas desfeitas por causa da água, ceder a uma qualquer infeção fatal, ou não conseguir arranjar alimento suficiente. A esperança está no contexto romântico: ali, só tu e eu… temos de ser nós.

É muito deprimente este imaginário do «ela-vai-reparar-em-mim-porque-não-lhe-resta-mais-nada». Mas, para quem sonha nada mais interessa.

Caímos muitas vezes nessa tentação: no trabalho, nos projetos de vida, na política, no amor. O contexto parece ser tudo, como se a vontade pouco tivesse a ver com o assunto, ou como se, nalguns casos (eu acredito que poucos), não tivéssemos de aceitar que «o que não tem remédio, remediado está». Raramente há cenários e contextos ideais. E, se os há no arranque, a realidade impõe-se, pelo que temos de estar preparados para resistir, ou melhor, construir e sonhar para lá do contexto.

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Quanto ao filme, vi-o mais tarde. Os padres estavam atentos e, nesse dia, na hora precisa, tivemos uma surpresa: um filme em cassete de vídeo. «Quem tramou Roger Rabbit» tomou o lugar do «Lagoa Azul». Lá nos contentámos com a Jessica Rabbit. Afinal, só nos restava sonhar.


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