O jazz não cabe em Portugal. Soul, muito menos
Paula Cordeiro
03 de janeiro

O jazz não cabe em Portugal. Soul, muito menos

Foi estúpido usar actores brancos para dobrar a voz de actores negros porque este é o primeiro filme de animação com um protagonista negro, interpretado por vozes negras, e o jazz tem a sua matriz nas vozes e na cultura africana.

Sentei-me para organizar ficheiros no computador, libertar memória e começar o ano com espaço disponível e um ambiente de trabalho organizado, coisa que a pressa das festas não permite. O ecrã do telefone iluminou-se com uma notificação: várias personalidades assinaram uma petição que pede uma nova versão do filme Soul. Em comum, o tom de pele mais escuro do que o meu. Deverei dizer negros, não-brancos, não caucasianos, afro-descendentes? O que escolher, nos dias de hoje, para caracterizar alguém que, legitimamente, não concorda que actores brancos (também não sei o que chamar a estes) dêem voz a personagens de um filme sobre um pianista de jazz que conta a história dessa maravilha que é estar vivo e viver. Designação politicamente correcta para a cor da pele à parte - e guardem já a(s) pedra(s) porque não entro na hipocrisia do "não sou racista e não vejo diferença" porque todos conseguimos ver. É visível que a cor da pele ou o tipo de cabelo são diferentes. Contudo, nada mais, além do racismo, separa as pessoas. Como afirmou, em tempos, Sara Tavares, uma das subscritoras desta petição, o racismo não vem necessariamente da cor da pele, vem da estupidez. E foi estúpido usar actores brancos para dobrar a voz de actores negros porque este é o primeiro filme de animação com um protagonista negro, interpretado por vozes negras, e o jazz tem a sua matriz nas vozes e na cultura africana. O jazz foi a música de pretos, odiada no Estado Novo, que José Duarte, durante mais de 50 anos, transformou na música amada, através do 5 Minutos de Jazz, na rádio. A música de pretos não cabia num país no qual, ainda hoje, as pessoas são invejosas, ciumentas. São cínicas, fingem para não ofender, mentem, afirmou José Duarte numa entrevista há uns anos. Recortei a frase porque gostei desta afirmação e para não me esquecer da razão de pequenas coisas tão portuguesas que, actualmente, as redes ampliam. São coisas sem Soul. Embarcamos cada vez mais depressa no comboio da última moda nos media sociais, repetindo frases e ideias, copiando partilhas porque não queremos ficar de fora da tendência. E Soul já foi tendência. Para fazermos parte colocamos o perfil negro, para não sermos excluídos repetimos frases, para sermos aceites ampliamos ideias. É também nas redes que descobrimos muitas coisas, como ter sido Omar Sy a dobrar Jamie Foxx, a voz original da personagem principal, na versão francesa de Soul

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