Notícia

Nuno Henrique Luz

A morte do artista do pedal

05.09.2016 09:30 por Nuno Henrique Luz
Haute Route Alpes. Lá levei o barco até ao fim. Por aí, missão cumprida. Mas saiu do pêlo. A etapa 6, a penúltima, 134 kms e 3400 metros de subidas entre Courchevel e Megève, consegui acabá-la, já tarde na sexta, mesmo antes que ela acabasse comigo
Foto: Sábado
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3.000 km a pedalar: Diário 12 da Haute Route 

Haute Route Alpes. Lá levei o barco até ao fim. Por aí, missão cumprida. Mas saiu do pêlo. A etapa 6, a penúltima, 134 kms e 3400 metros de subidas entre Courchevel e Megève, consegui acabá-la, já tarde na sexta, mesmo antes que ela acabasse comigo.

As três montanhas em cartaz - o Col de Tra, 10 kms e 800 metros de ganho vertical; o Cormet de Roselend, 19 kms e 1200 kms de desnível acumulado; e o Col des Saisies, 16 kms com 900 metros de subidas - foram um Evereste, e um Evereste fora da época, cada uma. Não fiquei ali sem dedos ou outras peças anatómicas porque na bicicleta isso não acontece e além do mais estava calor, mas à medida que o dia avançava fui deixando na estrada alguns restos da minha alma para estas coisas.

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O mal. Por motivos logísticos - avaria na bicla com reparação longa; hotel distante - não consegui jantar na noite anterior. Resultado: na manhã seguinte, mesmo atacando o pequeno-almoço em busca dos açúcares perdidos de véspera, o depósito estava a zeros. O que deu (e doeu) para perceber logo na primeira subida, quando comecei a ser ultrapassado por aqueles corredores que em condições normais descarrego no princípio e nunca mais vejo excepto no almoço pós-etapa, eles a chegar desalinhados e eu fresquinho do duche e já na sobremesa. No Col de Tra, um após outro desapareciam na linha do horizonte como se eu fosse a descair na inclinação.

 


Chegou ao ponto em que estávamos muito além de a coisa ser difícil para o ego. Era mais grave. Era ver-me sem força alguma nas canetas e sem solução à vista, totalmente impotente perante o que ainda me esperava nas próximas horas, e ainda a pressão dos tempos-limite. Se as minhas pernas fossem um motor de carro, nem a um cilindro estavam a trabalhar, mas não tinha como não me mexer, se não queria ficar pelo caminho ao dia 13 da Triple Crown.

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Quantidades industriais de açúcar, de géis e bebidas energéticas, na fronteira do que o meu sistema digestivo era capaz de aceitar sem se virar contra mim - por sorte, sempre tive essa fronteira bastante alargada -, resolveram, embora lentamente, o problema. Mas não ganhei para o custo - psicológico desta guerra. Ao jantar ainda tinha dificuldade em concentrar-me no que estava no prato, o que no meu caso diz muito sobre os níveis de perturbação.

Aquele moda recente da nutrição desportiva que diz que podemos usar a gordura corporal e da dieta como energia desde que tenhamos feito um processo de adaptação com instruções complicadas - esqueçam. Já tentei todas essas experiências e posso garantir que a partir de um certo nível de intensidade, como é subir montanhas com o relógio sempre a contar, o esforço físico exige o açúcar como combustível e a falta dele nota-se bem.

 



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Nesta altura sei perfeitamente distinguir o cansaço muscular e do sistema nervoso, habitual nestas corridas ao fim de uns dias, de ter as pernas vazias, e o que eu tinha era pernas vazias, e elas estavam vazias por falta de glicogénio no músculo. Dias a fio a ir às reservas, saltar uma refeição importante ou simplesmente não repôr açúcares e é a morte do artista do pedal. Lição aprendida, não que não a soubéssemos, mas é um facto que estamos sempre a aprender o que já sabíamos.

Megève. Terrinha bonita, com bons restaurantes a preços previsivelmente de comédia e a sua quota-parte de lojas da Chanel e da Prada, para turistas acidentais com massa que procuram o conforto familiar destes McDonalds do luxo. Lugar de passagem engraçado, sobretudo pelo espectáculo do irracional; não queria lá viver.

7 e 7 são 14. A etapa 7 da Haute Route Alpes, também a número 14 da HR Triple Crown depois da semana dos Pirinéus e antes da dos Dolomitas e Alpes Suíços, no fim da qual teremos 21 dias nas pernas e na cabeça - confusos? Ficam a saber o grau de declínio do processo cognitivo, e principalmente explicativo, depois de quase duas semanas e meia de corrida.

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Da etapa 7 e última dos Alpes há para dizer que foi concluída com a facilidade e a dose de divertimento concedidas por uma boa alimentação prévia e durante, a juntar a umas pernas ainda razoáveis. Quando nos sentimos bem, a bicicleta é uma festa e não há machado que corte a raíz ao pensamento dominante: "Yee-haw!". (Aqui pensamos em inglês porque estamos entre pessoas de mais de 50 nacionalidades e por vezes pensamos em voz alta e por questões de educação não queremos pôr ninguém de parte.)

A maior montanha do dia, o Col de la Colombière, 16 kms com mil e picos metros de ganho vertical até ao topo, a 1613 metros, foi despachada com alegria, e nas outras duas subidas - a de Araches e o Col du Cou, num total de 17 kms e 900 metros de desnível acumulado - manteve-se a boa disposição geral. Ao todo, foram 138 kms e 2200 metros - e assim acabou a Haute Route dos Alpes, com a meta em Yvoire, a 20 e poucos kms de Genebra.

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Suíça, Genebra. Onde estou agora e onde vai ser a partida, esta segunda-feira, da Haute Route Dolomitas e Alpes Suíços. Fui ao supermercado e compreendi que com a manutenção do franco suíço é verdade que há qualquer coisa que se perde do sonho europeu. Essa coisa é imaginarmos que podíamos ir às compras numa Suíça tão europeia como nós sem o credo na boca. Por mim não direi mais, mas a minha carteira ficou fortemente eurocéptica.

 


Brasileiros. Um grupo enorme, de algumas dezenas, que vestia quase todo de igual, uniforme personalizado para o pelotão inteiro em verdes e amarelos e com o mapa da corrida de 2016. Faziam as etapas em ambiente de grande animação e houve um dia em que até dançaram o "Ai se eu te pego" no final de uma montanha.

Um português tem saudades discretas da terra, que ficou para trás. Um brasileiro traz sempre o Brasil consigo. Como na canção de João Gilberto, chega de saudade.

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Rappel. Em França há muitas localidades com este nome. Ou assim parece, quando a glucose é desviada do cérebro para o músculo e a falta de oxigénio em altitude também ajuda. Na realidade, Rappel é um sinal de trânsito à entrada das povoações e que quer dizer "Atenção".

Cidre bouché. Bebida imperceptivelmente alcoólica, 2,0/2,5 graus, feita a partir de sumo de maçã fermentado. Prefiro a versão doce (o açúcar outra vez, por necessidade e pretexto) à bruta e, à noite, já estendido na cama, só para mim não sobra muito de uma garrafa de 0,75. Com um pacote de pistácios póe-me a dormir num instante, sem preocupações e com um sono de recém-nascido. Sem ele, na manhã seguinte a vontade não é a mesma, e sem vontade tudo isto é muito mais difícil.

 


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Dolomitas. E Alpes Suíços, para dar o nome completo da terceira Haute Route, a última semana da Triple Crown. 900 kms e 21 mil metros de subidas de Genebra a, no dia 11, Veneza. É a pior das HRs, pelas montanhas, que vão ainda mais alto e mais longe; pelas transições até elas, que podem ter dezenas e dezenas de kms em todo o tipo de piso e com densidades instáveis de carros e camiões; e pelo tempo, que dadas as altitudes e já estarmos em Setembro é um factor de incerteza que não seria de todo a minha primeira escolha se por acaso tivesse uma palavra a dizer sobre os factores de incerteza que teremos de enfrentar esta semana. O que tem de ser tem muita força etc etc. Quanta - esse é que é o problema.



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Nuno Henrique Luz está a fazer a Haute Route Triple Crown, que liga Anglet (Biarritz) a Veneza em 21 dias e ao longo de três mil quilómetros, 62 mil metros de subidas e três cadeias montanhosas. Ao todo, são mais de 1500 participantes, distribuídos pelas três semanas. A grande maioria faz apenas uma Haute Route/uma semana - Pirinéus, Alpes ou Dolomitas. Um pequeno grupo de 25 ciclistas, com uma motivação certamente do foro psiquiátrico, está a fazer as três Haute Route – a tal Triple Crown. O Nuno, para grande surpresa do Nuno de não há muito tempo, é um deles.

Conheça o percurso das etapas da Haute Route Alpes, aqui.

Fotos da etapa de hoje, aqui.

Vídeo da etapa desta quinta-feira e das anteriores, aqui.

Fotos da Haute Route Pirinéus, primeira semana da Haute Route Triple Crown, aqui,

Vídeo final de resumo da semana dos Pirinéus aqui.

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Nuno Henrique Luz
 é jornalista e crítico de cinema. Já foi e fez quase tudo na profissão (nunca cantou um golo na rádio e isso pesa-lhe) mas agora do que gosta mesmo é de escrever sobre boa vida, viagens, desporto de aventura - e filmes, muitos filmes.

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(Imagem de Margarida Coelho)


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