Não estamos perante uma crise de aspirações. Estamos perante uma crise de oportunidades.
Nascer em Lisboa, em Cartum, em Bogotá ou em Jacarta significa crescer em realidades profundamente diferentes. Uns vivem em paz, outros conhecem a guerra desde a infância. Uns enfrentam os efeitos das alterações climáticas, outros lidam diariamente com a insegurança económica ou com a falta de oportunidades. Mas, por detrás destas diferenças, há uma verdade que une a geração mais numerosa de sempre: os jovens querem poder construir a vida que escolherem.
Querem estudar. Querem um trabalho digno. Querem sentir-se seguros. Querem participar nas decisões que moldam o mundo onde vivem. E, quando chegar o momento certo, querem poder decidir se desejam ou não constituir família.
É precisamente esta a principal conclusão de um novo estudo global do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA): apesar da incerteza que caracteriza o nosso tempo, dois em cada três jovens adultos continuam a olhar para o futuro com esperança. É uma mensagem poderosa. Numa época marcada por conflitos armados, desigualdades, crise climática e instabilidade económica, a esperança continua a ser um dos recursos mais valiosos da juventude.
Mas essa esperança não vive desligada da realidade. Os jovens sabem que o futuro não se constrói apenas com ambição. Constrói-se com oportunidades. E são precisamente essas oportunidades que muitos sentem faltar.
Quando questionados sobre as condições necessárias para dar o passo de constituir família, as respostas são reveladoras. Para 87% dos jovens, um emprego estável é indispensável. Para 88%, a segurança financeira é um requisito fundamental antes de terem filhos. Também a preparação emocional surge entre as prioridades. Em todo o mundo, independentemente do contexto cultural ou geográfico, os jovens procuram exatamente o mesmo: condições para fazer escolhas livres e responsáveis.
Esta constatação obriga-nos a repensar um dos debates mais importantes do nosso tempo. Durante demasiado tempo discutimos a baixa da natalidade como se fosse sobretudo uma questão de preferências individuais. Os dados mostram outra realidade. A maioria dos jovens continua a querer construir relações duradouras e, em muitos casos, ter filhos. O problema é que muitos não conseguem concretizar esses projetos porque lhes faltam as condições para o fazer.
Não estamos, por isso, perante uma crise de aspirações. Estamos perante uma crise de oportunidades.
Garantir essas oportunidades significa muito mais do que criar emprego. Significa assegurar acesso à educação, aos cuidados de saúde, incluindo à saúde sexual e reprodutiva, à habitação, à proteção social e a uma educação para a sexualidade abrangente e baseada na evidência, que permita aos jovens conhecerem o seu corpo, compreenderem as suas relações e fazerem escolhas informadas ao longo da vida. Significa investir na sua autonomia para que possam decidir o seu futuro, e não apenas adaptar-se às circunstâncias.
Há outra mensagem do estudo que merece especial atenção. Quando perguntamos aos jovens quais são as suas maiores preocupações, a paz surge de forma consistente. Talvez não seja surpreendente. Esta geração cresceu a assistir, em tempo real, à guerra na Ucrânia, ao conflito em Gaza, às crises no Sudão, na República Democrática do Congo ou no Myanmar. Muitos nunca conheceram um mundo verdadeiramente em paz.
Mas seria um erro olhar para os jovens apenas como vítimas desta instabilidade. Em muitas comunidades são eles que lideram iniciativas de mediação, apoiam a reconstrução após crises, mobilizam voluntários, utilizam a tecnologia para aproximar comunidades divididas e criam respostas inovadoras para problemas antigos. São protagonistas da mudança muito antes de ocuparem posições de poder.
Investir na juventude é também investir na paz.
Sabemos que sociedades onde os jovens têm acesso à educação, ao emprego digno e à participação cívica são sociedades mais resilientes, mais inclusivas e menos vulneráveis à violência e ao extremismo. Sabemos igualmente que as raparigas e as jovens mulheres continuam a enfrentar obstáculos acrescidos, sobretudo em contextos de conflito, pobreza ou emergência climática. Sempre que uma adolescente abandona a escola, é obrigada a casar precocemente ou vê negado o acesso a cuidados de saúde, perde ela, mas perdemos todos.
É por isso que investir na juventude não deve ser encarado como um custo, mas como uma das decisões mais inteligentes que uma sociedade pode tomar. As evidências mostram que programas dirigidos aos adolescentes — que combinam saúde, educação, proteção social e apoio às famílias — geram benefícios muito superiores ao investimento inicial, com impactos duradouros na educação, na saúde, na participação económica e na igualdade de género.
A forma como tratamos os jovens diz muito sobre a sociedade que queremos construir. Podemos vê-los apenas como destinatários das políticas públicas ou reconhecê-los como parceiros na construção das soluções. A diferença entre estas duas perspetivas é profunda. Quando damos aos jovens espaço para participar, inovar e liderar, não estamos apenas a responder às suas necessidades; estamos a fortalecer as nossas democracias, a tornar as nossas comunidades mais resilientes e a preparar sociedades mais prósperas e mais pacíficas.
Os jovens já demonstraram que não lhes falta ambição, criatividade nem vontade de contribuir. Apesar das incertezas do nosso tempo, continuam a acreditar no futuro. Cabe-nos agora corresponder a essa confiança, investindo nas capacidades, no conhecimento, na saúde e nas oportunidades de que necessitam para concretizar os seus projetos de vida.
No fundo, investir na juventude é investir na liberdade. A liberdade de aprender, de participar, de amar, de construir uma carreira, de formar uma família — ou de não a formar — e de escolher o próprio futuro. Não importa onde um jovem nasce. O que importa é que tenha as mesmas oportunidades para transformar as suas aspirações em realidade. Esse é, afinal, o verdadeiro significado do desenvolvimento. E talvez seja também a melhor definição de esperança.
Os conflitos modernos travam-se também sobre os corpos dos mais vulneráveis. Em demasiados contextos, a violência sexual continua a ser utilizada como arma de guerra, instrumento de terror, mecanismo de controlo e forma de destruição do tecido social das comunidades.
Demasiadas pessoas continuam privadas da dignidade, dos cuidados e do apoio necessários para gerir a sua menstruação de forma segura e saudável. Não por falta de soluções. Mas por vezes por falta de vontade política, de investimentos e de coragem colectiva.
Num momento em que vários países parecem alarmados com a queda da natalidade, novos dados mostram que o verdadeiro problema não é a falta de vontade de ter filhos, mas sim a falta de condições para os ter.
O mundo foi, durante décadas, desenhado com um padrão implícito: o corpo masculino. Esse facto — tantas vezes invisível — continua a influenciar a ciência, a tecnologia, o design de produtos e até algumas políticas públicas.
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