O velho golpe do Novo Banco
João Paulo Batalha
15 de maio de 2020

O velho golpe do Novo Banco

A história pornográfica do Novo Banco é a crónica de um roubo organizado aos contribuintes, com ampla cobertura de uma classe política hipócrita, conivente e capturada.

Imagine que vai de férias e deixa uma pessoa da sua confiança a tomar conta de sua casa, responsável por regar as plantas, dar de comer ao cão, fazer uma ou outra pequena reparação que seja precisa. Imagine agora que, enquanto estava fora, a pessoa a quem confiou o governo da casa assinou um contrato com um assaltante – isso mesmo, um contrato formal, mediado por grandes sociedades de advogados e reconhecido por notário – que dá ao assaltante o poder de ir todas as semanas a sua casa roubar o que quiser.

A primeira coisa que faz quando volta de férias é, obviamente, pôr na rua o tipo em quem confiou para lhe tomar da casa. E promete à sua própria consciência que este caseiro, nunca mais! Só que, mesmo depois disso, o assaltante continua a bater-lhe à porta todas as semanas a exigir o roubo contratualmente consentido. E diz-lhe que, se para pagar o roubo tiver tirar comida da boca dos seus filhos, tanto pior; os contratos são para se honrar. Bem vindo ao velho golpe do Novo Banco.

O BES já lá vai, mas os seus despojos continuam a ser a parte mais podre da República. Podia ser karma, o ADN residual do tóxico DDT. Mas é pior do que isso. É a prova de um sistema de promiscuidade total entre o pior da política e o pior dos negócios. Ricardo Salgado pode ter caído do pedestal (embora seja improvável que alguma vez caia na cadeia), mas o sistema de total captura do Estado democrático que ele liderou está bem vivo – e mais forte do que nunca. Agora o abutre é americano e não tem rosto, mas o negócio continua. A última crise não o beliscou e a crise atual, ao que se vê, também não lhe tocará.

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