Isto está só a começar
João Paulo Batalha
01 de janeiro

Isto está só a começar

A cura da covid vem a caminho, com escolta policial em direto. Ainda bem. Mas neste Ano Novo terá de começar a grande tarefa de curar as outras epidemias que a pandemia revelou.

Nunca alinhei na rotina diária da crítica ao desempenho da ministra da Saúde ou da diretora-geral Graça Freitas – incluindo com coisas tão comezinhas, e que frequentemente achei mesmo mesquinhas, como a ministra chorar em público. A lógica de pelourinho própria das redes sociais é boa para expiar frustrações e raivas mas pouco acrescenta à discussão pública. O desempenho das instituições pode e deve ser escrutinado, mas no que toca à Covid é preciso ter literacia técnica e científica para discutir questões técnicas e científicas. Não basta o Google e boa vontade, sobretudo porque o próprio Google tem dificuldade em distinguir boa vontade de má-fé, de desonestidade ou de desinformação programada, pura e simples.

Dou de barato que se cometeram erros na gestão da pandemia. E dou de barato que era inevitável que se cometessem. Estávamos a lidar com uma realidade dinâmica, em grande parte desconhecida, que exigia agir com informação incompleta e ter a disponibilidade de corrigir a mira. Se em cima disto as instituições são frágeis e pouco capacitadas e o dinheiro não abunda, pior ainda.

Quando critiquei a gestão da pandemia do Governo foi essencialmente por dois erros, que outros países também cometeram: o primeiro foi não deixar claras as fronteiras entre a ciência e a política. Misturou-se demasiado as coisas e a sensação que fica é que, a espaços, a política não só não seguiu a ciência como tentou instrumentalizá-la. Conhecer o vírus e como combatê-lo é do campo científico e alvo de debate entre os peritos, como tem de ser. Decidir que restrições aplicar à liberdade dos cidadãos e à atividade económica já é do âmbito político e tem de ser decidido em função da melhor informação possível e pesando não só os impactos de saúde pública mas também os impactos económicos e sociais, que devem também eles ser medidos e projetados. Confundiu-se demasiadas vezes decisões técnicas com opções políticas, o que acaba tendo como efeito descredibilizar quer a política, quer a ciência.

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