“E, se mais Mentira houvera, lá chegara”
João Paulo Batalha
08 de janeiro

“E, se mais Mentira houvera, lá chegara”

Quem ouviu António Costa sobre o caso da Procuradoria Europeia matou saudades de José Sócrates. Reconheceu a trapaça, a vitimização e a ameaça. E reconheceu o que elas escondem.

A conferência de imprensa em que o primeiro-ministro defendeu afincadamente a sua ministra da Justiça é um épico camoniano de audácia, aldrabice e agressividade. Quando vemos um político falar muito alto e com grande convicção, há uma boa probabilidade de nos estar a enfiar o barrete. A verdade diz-se com calma e naturalidade, mas o espetáculo de António Costa ontem fez lembrar as atuações de José Sócrates contra os "velhos do Restelo" que se punham no seu caminho. Não é uma recordação grata.

Não vale a pena repisar as nebulosas que desde o início mancham o processo de escolha do procurador português na nova Procuradoria Europeia. Já aqui escrevi sobre isso, tintim por tintim. Havia um júri europeu cuja escolha o Governo quis que fosse ignorada, usando para isso – sabemos hoje – informação falsa. Sobre as explicações, contradições e patranhas que a ministra da Justiça tem usado para se justificar também não vale a pena carregar. Acredita quem quiser. Claro que não ajuda à credibilidade do caso conhecerem-se as ligações e simpatias pessoais entre os protagonistas – um problema que tem a ver com a quantidade de magistrados que anda a fazer carreiras paralelas na política e o que isso significa de conflitos de interesses e promiscuidades várias.

Certo é que a ministra tinha uma forma simples de pôr tudo em pratos limpos: se a verdade dos factos lhe dá razão, como diz e repete, era publicar os factos, divulgando toda a documentação – toda, até ao mais ínfimo papel – que o Governo mandou para Bruxelas sobre o assunto. Não só o Ministério da Justiça recusou fazê-lo, rejeitando um pedido de informação da associação Transparência e Integridade, como recusou com o argumento bizarro de que este é um processo político que está isento das leis de transparência. O processo onde o Governo fez tudo o que devia sem influência indevida é afinal "político" e não pode ser consultado. Esclarecedor.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login