Doces mentiras, amargas verdades
João Paulo Batalha
05 de junho de 2020

Doces mentiras, amargas verdades

Não depende só dos "outros", dos "políticos" ou da elite". Se queremos que a mentira deixe de ser central na vida pública temos de firmar um (penoso) contrato social com a verdade.

Durante uns minutos, na semana passada, o site da Sábado exibiu aquilo a que Freud chamaria um "ato falhado": duas notícias – a lei à medida da Festa do Avante e uma entrevista de Francisco Rodrigues dos Santos em que o líder do CDS simpatizava com tudo à direita e demonizava tudo à esquerda – sugeriram-me uma reflexão sobre o papel da verdade e da mentira na política e na sociedade. Comecei a compo-la mas, como acontece frequentemente quando tentamos encravar demasiadas ideias num só sítio, não resultou.

Acabei por desistir da tentativa e fiz um texto mais curto, mais simples, sobre a cultura de desigualdade e privilégio patente na regulação dos "festivais e espetáculos de natureza análoga". Só que na hora de o publicar – eis o ato falhado – enviei à Sábado o ficheiro errado, e foi erroneamente publicado, durante alguns minutos, um esboço inacabado de várias ideias em vez de um texto com cabeça, tronco e membros. Devo aos leitores e à equipa da Sábado (completamente alheia ao meu erro) as minhas desculpas.

Mas há males que vêm por bem: o ato falhado vinculou-me a voltar ao assunto que falhei à primeira tentativa. E há urgência neste assunto porque, independentemente do modo como se traduz nas notícias da semana – esta semana traduziu-se na nomeação de um "paraministro" para a recuperação económica –, a nossa relação com a verdade é hoje uma questão de emergência nacional, acima até da emergência pandémica.

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