Dê as Boas Festas ao seu merceeiro
João Paulo Batalha
25 de dezembro de 2020

Dê as Boas Festas ao seu merceeiro

A multa da Autoridade da Concorrência a seis supermercados retrata uma autêntica cultura de rapina sobre os cidadãos. É um bom sinal para pensarmos na nossa vida.

Aconteceu naquele primeiro sábado da segunda vaga, quando o Governo impôs o recolher obrigatório a partir das 13h00 aos fins de semana – num decreto que assume que os portugueses não têm direito senão a ir trabalhar. Com enormes filas à porta dos supermercados mais próximos de minha casa, (ideais para conter contágios, mas enfim) decidi ir a uma mercearia três quarteirões acima. Sabia dela mas nunca lá tinha entrado. Não estava ninguém, fui muito bem atendido, trouxe o que precisava e prometi voltar.

Lembrei-me da mercearia ao ler a notícia da multa histórica aplicada esta semana pela Autoridade da Concorrência a seis supermercados e duas outras empresas, além de dois responsáveis pelo esquema que combinou a subida artificial dos preços das bebidas da Central de Cervejas durante pelo menos nove anos, entre 2008 e 2017. Ao todo são 304 milhões de euros em multas que têm como alvos principais, além da própria Central de Cervejas e da distribuidora Primedrinks, o Modelo Continente, o Pingo Doce, a Auchan, o Intermarché, o Lidl e a E. Leclerc.

Num país onde a regulação é tantas vezes tímida ou cúmplice dos abusos dos regulados, esta condenação é um marco importantíssimo e uma afirmação da independência e assertividade da Autoridade de Concorrência, que está por isso de parabéns. Agora vêm os próximos capítulos: os condenados já anunciaram que vão recorrer da decisão para o Tribunal da Concorrência. 

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