Ana Gomes, claro
João Paulo Batalha
11 de setembro de 2020

Ana Gomes, claro

O melhor que podia acontecer numa eleição que dizem que é a feijões seria uma discussão séria sobre o papel do Presidente da República no nosso regime. E acabar com a feijoada.

Há meses, para escrever um perfil sobre Ana Gomes, uma jornalista ligou-me com a pergunta mais elementar possível: quando conheceu Ana Gomes? Mau de datas e de memória, nem a isso respondi de forma exata. A verdade é que, como quase toda a gente, conheci Ana Gomes antes de conhecer Ana Gomes.

Conheci Ana Gomes ao mesmo tempo que todos. Como uma diplomata fora do molde, assertiva, presente, frontal, o oposto da imagem do diplomata típico: homem (para começar), discreto, sereno ineficaz. Ana Gomes foi a diplomata corajosa que não só esteve no terreno a garantir o processo de independência de Timor-Leste, como o fez ao mesmo tempo que estabeleceu relações amistosas com a potência ocupante, a Indonésia. Foi a maior proeza diplomática da história do regime democrático e Ana Gomes esteve no centro.

Antes de conhecer Ana Gomes já conhecia Ana Gomes. Ainda assim, zangado com a minha memória, foi à procura em notas e agendas antigas. Deve ter sido em março de 2012 que conheci a Ana Gomes. O país estava sob resgate externo e tinha assinado um memorando de entendimento que impunha reformas estruturais. A Transparência e Integridade via naquele programa de resgate uma oportunidade de curar vícios antigos, mas ao mesmo tempo um risco enorme de aprofundar desigualdades e sacrificar os portugueses para preservar (resgatar, na verdade) nexos de corrupção e promiscuidade política foi o que aconteceu, infelizmente, e é a mesma preocupação que tenho hoje, com mais um pacote multibilionário europeu a caminho.

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