A Primavera marcelista
João Paulo Batalha
22 de maio de 2020

A Primavera marcelista

Marcelo arrisca-se a passar à história como o mandatário simpático que tentou descomprimir, sem resolver, as tensões de uma sociedade, e de um regime, em pré-rutura.

Na manhã de 3 de agosto de 1968 uma cadeira de lona num dos pátios do Forte de Santo António da Barra, no Estoril, fez o que nenhum português tinha até então querido ou conseguido fazer: iniciou o processo de destituição de Salazar. Talvez o mérito não seja da leve lona da cadeira, mas do pesado rabo do ditador, que se deixou cair pesadamente num assento já cansado de suportá-lo. Seja como for, o salazarismo caiu de velho, caiu de podre, caiu de cu – em Portugal sabemos arrastar as coisas até muito para lá do seu limite de salubridade.

Os quase seis anos que se seguiram (ou a parte inicial deles, pelo menos) ficaram conhecidos como a Primavera marcelista: o novo Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, anunciou reformas, numa tentativa de abrir o regime e modernizar, mesmo que minimamente, o país. Foi um logro. A Assembleia Nacional acolheu uma chamada Ala Liberal para dar algum contraponto às maiorias bafientas da brigada do reumático mas nada de estrutural mudou: partido único, polícia política e censura mudaram de nome mas não de natureza. E quando chegou à questão magna do país – a guerra colonial – Marcelo Caetano não se moveu. Onde era precisa uma rutura faltou a força e a vontade; e a Primavera marcelista cedo se transformou no Outono do regime. Na madrugada de 25 de Abril de 1974, Salgueiro Maia reuniu os seus soldados na parada do quartel de Santarém para, como explicou, "acabar com o estado a que chegámos" e terminar pela força – sem ser necessário disparar um tiro – o trabalho iniciado seis anos antes pela leve lona, ou pelo pesado rabo.

É difícil não pensar na oportunidade perdida – a última oportunidade – dos seis anos da Primavera marcelista quando se reflete sobre os cinco anos da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Eleito à primeira volta com abstenção recorde, Marcelo apresentou-se como o Presidente dos afetos, mais próximo e mais carismático do que o seu antecessor, mais autónomo face aos partidos que o apoiaram e, portanto, mais capaz de fazer pontes diretas entre o sistema político e os cidadãos; ou de fazer ruturas com a inércia desse sistema político quando fosse preciso.

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