A culpa é do povo
João Paulo Batalha
26 de junho de 2020

A culpa é do povo

O momento em que um político começa a acreditar na sua própria propaganda é geralmente um ponto sem retorno. Em Portugal, parece que o atingimos na última quarta-feira.

Os relatos da explosão que António Costa terá tido na última reunião sobre a pandemia, no Infarmed, esta quarta-feira, surpreendem pela quebra de urbanidade para com a ministra da Saúde – alvo da ira do primeiro-ministro – mas batem certo com a evolução da reação política à pandemia. Que Costa tenha perdido a paciência e interrompido a sua ministra em tom ríspido é desagradável mas pode ser relevado: os tempos são de tensão acumulada para todos; e sem dúvida o chefe do Governo sente-a mais do que qualquer um de nós. 

O que há de interessante no episódio – que chegou à imprensa em versões mais ou menos dramáticas, consoante a fonte – é o que diz não só sobre o estilo pessoal de António Costa (que aliás não traz grande novidade), mas sobre como a política se reduziu à mais básica gestão de perceções, em que a adesão à realidade é meramente facultativa.

A irritação de Costa já teria começado antes da ministra da Saúde tomar a palavra, quando dois especialistas da DGS explicaram que o panorama nacional da Covid-19 não era tão risonho como isso e que a subida dos casos não é explicável apenas com a quantidade de testes realizados – problema para o qual o próprio Trump já arranjou solução: reduzam-se os testes! 

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