Tenho uma horta em casa
João Laborinho Lúcio
22 de abril de 2020

Tenho uma horta em casa

"Estes dias de confinamento dão azo à expansão da nossa criatividade e à tomada de decisões que, de outra forma, não tomaríamos. Falo de decisões pequenas. Daquelas que não são pensadas para mudar o mundo."

Estes dias de confinamento dão azo à expansão da nossa criatividade e à tomada de decisões que, de outra forma, não tomaríamos. Falo de decisões pequenas. Daquelas que não são pensadas para mudar o mundo. E falo de criatividade num sentido muito aberto, como sendo a habilidade de gerar ideias novas, mesmo que delas nasça pouca fruta. Não mergulho nas notas de Keith Jarret para buscar um conceito de criatividade que aqui queira usar, embora um mergulho, sem botija, nas suas notas nos traga sempre um perfume ou uma Colónia nunca antes sentidos.

Essa criatividade, mais singela, fez nascer uma horta em minha casa. Uma horta num apartamento, mais propriamente na varanda de um apartamento. Uma horta em minha casa fez nascer um campo sem fim. Abriu-se mais uma janela com vista sobre aquilo que escolhemos ver.

Dessa horta deviam nascer cenouras, coentros, rúcula, salsa e chili. Quer dizer, deviam não. A minha mulher bem diz: "olha, vês, já estão a nascer …". E, se ela diz, eu acredito que aqueles micro pontos verdes são os alimentos que ela diz estarem a nascer. E acredito porque sempre que os vejo nascer no frigorífico e vaguearem por outros eletrodomésticos da nossa casa até chegarem a um prato que encanta as nossas refeições, temperadas de Mingorra, confirmo que aqueles micro pontos devem mesmo ser o que a minha mulher diz que são. E quando atiro as papilas gustativas para cima daqueles pratos, até acredito nisso e em muito mais. Parecem notas do Jarret a saltar diretamente da horta para os meus sentidos.

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