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João Carlos Barradas
29.11.2025

Um psicopata afável

A ambição de identificar uma possível essência individual do mal fascinou naturalmente os psiquiatras que analisaram os detidos nazis de Nuremberga.

«Um país estrangeiro não tem o direito de julgar um estado soberano», alegava Hermann Göring antes de começar o seu julgamento, faz 80 anos, no Tribunal Militar Internacional de Nuremberga.

O homem que Hitler nomeara publicamente como seu sucessor ao desencadear a guerra contra a Polónia, a 1 de Setembro de 1939, estava disposto a ridicularizar «a farsa» de Nuremberga.

Disse-o a um dos psiquiatras destacados para analisar o estado de saúde mental dos dirigentes nazis detidos pelos Aliados e viria a reiterar no tribunal a impunidade soberana do estado alemão na condução da guerra pelos supremos interesses da nação e da raça ariana.

O teor dessa conversa com Leon Goldensohn não destoava de outras que Göring tivera antes com os psiquiatras Douglas Kelley e Gustave Gilbert, também norte-americanos, e reflectia bem a intenção do «Reichsmarschall des Großdeutschen Reiches» de reivindicar para a eternidade a grandeza do ideal nazi.

O ás de Hitler

Göring, herói das batalhas aéreas da Grande Guerra, muito contribuíra para a aceitação de Hitler pelos círculos nacionalistas conservadores da República de Weimar.

Herman Göring fora o «ás dos ares» que sucedera, em Julho de 1918, ao mitificado «Barão Vermelho», Manfred von Richthofen, no comando das esquadrilhas do «Circo Voador», e terminara a guerra condecorado com a mais prestigiada condecoração militar alemã, a «Pour le Mérite».

Alinhara a partir de 1922 no radicalismo do cabo austríaco Adolf Hitler, fora implacável na perseguição dos inimigos do nacional-socialismo, e ascendera aos mais altos cargos após a tomada do poder em 1933.

Göring viria, todavia, a perder influência e controlo administrativo para rivais como Heinrich Himmler ou Albert Speer a partir do momento em que a «Luftwaffe» falhou na missão de vergar a Grã-Bretanha e, mais tarde, ao ver-se impotente para pôr cobro aos bombardeamentos aliados na Alemanha.

O fracasso da força aérea no apoio às tropas alemãs e seus aliados romenos, húngaros, italianos e croatas na Batalha de Stalingrad, entre Julho de 1942 e Fevereiro de 1943, foi fatal a Göring.

O «número dois do Reich» confinou-se cada vez mais aos prazeres da sua reserva de caça e complexo monumental de Carinhall, a nordeste de Berlim, onde acumulara obras de arte saqueadas.

Na agonia do «Império de Mil Anos», em Abril de 1945, Göring viu-se acusado de tentar usurpar o poder, foi expulso por Hitler do Partido Nacional-Socialista antes do «Führer» se suicidar a 30 de Abril, e rendeu-se a tropas norte-americanas, na Baviera, a 9 de Maio, um dia após a capitulação.

O desafio do marechal imperial

Göring era o mais destacado dirigente entre os nazis que os Aliados decidiram, em Agosto de 1945 , levar a julgamento por crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

O «Marechal do Império» foi o primeiro dos 21 acusados – Robert Ley, o líder da «Frente do Trabalho» conseguira enforcar-se na cela antes do começo do julgamento – a apresentar a sua defesa em Março de 1946.

A lealdade a Hitler, a grandeza da guerra justa da Alemanha, o mentiroso desconhecimento do extermínio nos campos de concentração e dos massacres na Frente Leste por esquadrões especiais e militares marcaram o depoimento de Göring.

Foi a hora de redenção de Göring como líder nazi e o seu desafio ao tribunal pesou numa Alemanha em ruínas.

Após Nuremberga, inquéritos de opinião indicavam que três quartos dos alemães consideravam justo os julgamentos, mas essa apreciação positiva caiu rapidamente.

A condenação clara dos crimes nazis só começou a repercutir decisivamente após o julgamento, em 1961, em Jerusalém, de Adolf Eichmann e dos processos em Frankfurt, entre 1963 e 1968, de responsáveis de médias e baixas patentes do complexo de concentração e extermínio de Auschwitz numa fase em que a economia da República Federal começava a afirmar-se.

Ao terminar o julgamento em Outubro de 1946, com doze condenações à morte – incluindo in absentia Martin Broman, secretário-privado de Hitler – ficaram a claro ambiguidades e contradições dos Aliados que se iriam revelar ainda mais gritantes no Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente que decorreria em Tóquio entre Abril de 1946 e Novembro de 1948.

Questionou-se o massacre de mais de 20 mil militares polacos pelos soviéticos – aliados de Hitler entre Agosto de 1939 e Junho de 1941 –, em Katyn, em 1940, os bombardeamentos de cidades alemãs pela aviação britânica e norte-americana, e a legitimidade de um julgamento de vencidos por determinação e em termos inéditos definidos pelas potências vencedoras.

O imperativo do direito internacional

Vingou, contudo, a validação do princípio de direito de julgamento, mandatado por entidades internacionais reconhecidas, de estados, indivíduos e organizações suspeitas de crimes muito graves contra a humanidade, de genocídio, de guerra e agressão militar.

A contestação deste princípio é, no entanto, cada vez mais flagrante.

Não falta actualmente quem dê razão à pretensão de Göring de um direito superior e absoluto do estado, consagrando transcendentes valores nacionais, religiosos e raciais.

É questão de política e direito fundamental, ultrapassando em muito a culpa e perversão individuais dos grandes líderes, que o filme «Nuremberga», realizado pelo norte-americano James Vanderbilt, traz à discussão.

Acabado de estrear em Portugal, «Nuremberga» aborda de forma algo fria o confronto com a presença da violência absoluta, sem sombra das ambiguidades trágicas da opulência e sedução do mal e do custo que implica resistir-lhes.

A ambição de identificar uma possível essência individual do mal fascinou naturalmente os psiquiatras que analisaram os detidos nazis de Nuremberga.

«Dissecar o mal», identificar a síndrome da crueldade, revelou-se, contudo, algo de ilusório e, nesse ponto, os psiquiatras estiveram de acordo.

Um «narcisista agressivo», obcecado pelo poder, concluiria acerca de Göring, o primeiro psiquiatra a analisá-lo, Douglas Kelley, que viria a advertir no livro «22 Celas em Nuremberga», publicado em 1947, para o risco de se ignorar que em situações de crise e, não apenas na Alemanha, muitos indivíduos não hesitariam em impor-se pela violência.

Incompreendido e desconsiderado por considerar os nazis «mero produto do seu ambiente», quando, de facto, também sublinhava nos detidos de Nuremberga a propensão à violência e o desprezo pelos concidadãos, Kelly suicidou-se aos 45 anos.

A impenitência do mal

O desatino de Kelly, propenso ao alcoolismo e depressão, é uma das linhas da trama de «Nuremberga», filme bem menos contundente e conseguido do que, para referir outra película norte-americana, o «Julgamento em Nuremberga» de 1961, realizado por Stanley Kramer.

A convincente presença de Russell Crowe (Göring) e o desempenho de Rami Malek (um extravagante Douglas Kelley) não salvam um filme que acentua vaidades, divergências de interpretação e abordagem entre os primeiros psiquiatras presentes em Nuremberga.

De facto, no essencial, Gustave Gilbert, também definiria Göring como «uma personalidade impiedosa e agressiva, sob uma capa de afabilidade desarmante quando lhe convinha».

«Um psicopata afável», sintetizaria Gilbert num artigo de 1948 para a revista da Associação de Psicologia Americana.

Ao judeu Leon Goldensohn, Göring diria, por sua vez, que no caso de ter sabido o que se passava com os crimes contra os judeus «ter-me-ia simplesmente sentindo mal, mas, de qualquer maneira, pouco poderia ter feito para os evitar».

A impiedade e o egoísmo absoluto ressaltam desta afirmação.

O torcionário Herman Göring escapou à forca ao suicidar-se com uma cápsula de cianeto na véspera de subir ao cadafalso.

O sistema de perversão moral do Terceiro Reich impôs e propiciou a ascensão de gente apostada na violência e impiedade, na impenitência do mal.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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