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Gonçalo Saraiva Matias

Holanda vs Turquia

15.03.2017 11:47 por Gonçalo Saraiva Matias
"As atitudes precipitadas só podem produzir maus resultados, num mundo em que as notícias decentes escasseiam"
Foto: Sábado

Infelizmente, este artigo não é, ao contrário do que o título possa indiciar, a recordação de um jogo da "laranja mecânica", num qualquer campeonato europeu de futebol.

Na verdade, verificou-se esta semana um grave incidente diplomático entre a Holanda e a Turquia.

Nos próximos dias, realiza-se na Turquia um referendo que visa reforçar os poderes constitucionais do presidente Erdogan.

Como é sabido, residem na Europa, em países como a Holanda, a Alemanha ou a Bélgica, importantes comunidades turcas, cujos membros conservam, naturalmente, o direito de voto no seu país de origem.

Por esta razão, dois ministros Turcos, um deles o dos Negócios Estrangeiros, pretendiam fazer campanha na Holanda, junto dessas comunidades, apelando ao voto no sentido desejado por Erdogan.

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Ora, o avião do ministro dos Negócios Estrangeiros foi impedido de aterrar em solo holandês, e a ministra dos Assuntos Familiares foi escoltada de Roterdão até à fronteira com a Alemanha.

A Holanda alegou, é certo, que, de acordo com o seu direito interno, a realização de campanhas eleitorais relativas a terceiros países seria ilegal.

Mas esta proibição não pode deixar de ser interpretada com bom senso. Já nos habituámos a ver os políticos em campanha na diáspora, sem que isso tivesse merecido censura dos países de acolhimento desses emigrantes.

Nem, na verdade, se vê como seja possível conservar o direito de voto dos migrantes no seu país de origem, quando actos de campanha eleitoral estejam proibidos no país de residência.

É evidente que este incidente tem outras origens, mais profundas.

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Por um lado, a Holanda encontrava-se em plena campanha eleitoral, realizando-se hoje as eleições legislativas. Nestas eleições, decisivas para o futuro da Europa, o tema das migrações desempenhou um papel central, estando sempre presente no debate entre o actual Primeiro Ministro Mark Rutte – o qual endureceu, nos últimos tempos, o discurso a este respeito – e o líder populista Geert Wilders –, que fez campanha assente no discurso anti-imigração.

Por outro lado, a imagem de Erdogan na Europa não é hoje a mais positiva. Isto assenta em razões atendíveis, relacionadas com o modo como tem governado o país, no que toca ao respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos. Isso foi especialmente visível desde o falhado golpe de Estado. Suspeito, em todo o caso, que não é esta a principal razão de afastamento entre os políticos holandeses e Erdogan.

Sendo o tema das migrações central na campanha eleitoral holandesa, tratou-se de uma oportunidade para diabolizar o líder do país que acolhe cerca de 3 milhões de refugiados sírios e que pode, a todo o momento, fazer reacender a crise migratória na Europa.

Esta possibilidade não é, de resto, teórica. O próprio presidente Erdogan e os seus ministros têm afirmado repetidamente que a suspensão da declaração UE - Turquia em matéria de refugiados é uma possibilidade, caso as negociações com a União Europeia não decorram a contento do Governo Turco.

Em face desta realidade, é compreensível a reacção das autoridades holandesas. Não queriam, por um lado, alimentar um discurso de chantagem no seu próprio solo, num tema como o das migrações. Já para Geert Wilders, este episódio constituiu uma oportunidade de ouro para instilar o medo no seu eleitorado, com o rosto do Presidente Turco.

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Veremos quais os resultados, quer das eleições na Holanda, quer do referendo Turco.

Em todo o caso, desta história fica a lição segundo a qual a diplomacia implica bom senso e respeito de parte a parte. As atitudes precipitadas só podem produzir maus resultados, num mundo em que as notícias decentes escasseiam. Esperemos que os eleitores, amanhã na Holanda, e depois de amanhã na Turquia, revelem o equilíbrio que tem faltado aos seus líderes.


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