Francisco Sousa Mestrado em Biotecnologia, Produtor Musical
24 de maio de 2018

“Eu Sou Politicamente Incorrecto!”. A Rebeldia da Naftalina

"É delicioso ver católicos súbditos de John Stuart Mill opondo-se a liberdades básicas de minorias oprimidas para proteger os seus interesses no topo da pirâmide, qual coelho em dia de cheias. Como diria José Sócrates, a vida dá muitas voltas."

Sacudamos o pó, que cheira a naftalina! Em 1990 mal se usava a expressão "politicamente correcto" até que Richard Bernstein escreveu para o New York Times um artigo intitulado "The Rising Hegemony of The Politically Correct". A partir daí, a histeria republicana espalhou-se e sofreu dois milagres: Primeiro transformou-se em ouro, sendo tema principal de numerosos e caros bestsellers anglo-saxónicos com títulos danados como "Fuck Politically Correctness",  "Uncommon Sense" ou "The New Fascists". Que raiva essa, meus senhores. Em milhares de artigos inflamados e centenas de bravas publicações literárias de valor duvidoso, pessoas acusadas do crime de ser politicamente correctas foram comparadas aos jacobinos da revolução francesa, à SS alemã e ao regime de Stalin. E isto sem pegar numa arma. É obra! Só podem ser gente aterradora! Já nos anos 00, o segundo milagre deu origem, em dia de sol radioso, a uma bóia de salvação homologada pelo Instituto de Socorros a Náufragos para uso exclusivo pela nossa população mais velha e perdida de encantos pelo Portugal Glorioso dos Descobrimentos!!

Os casos variam: tanto se acusa um pai de ser politicamente correcto por ser uma alforreca que se deixa insultar pelo filho de 5 anos, se indignam dignos cidadãos por não haver quem "trate da saúde ao Dias Loureiro", como há gente zangada com quem não concorda que um futuro museu lisboeta se chame "Da Descoberta". Mas…quem está zangado afinal? E contra quem? O Larápio ainda procura desesperadamente quem se identifique como sendo defensor do politicamente correcto. Vai a cafés, teatros, repartições de finanças. Mas não encontra. Serão fantasmas? Além disso se existissem, teriam sindicato. A caça à personagem politicamente correcta - sem definição satisfatória nem sujeito voluntário - não tem vida fácil.

Em Portugal, território especialmente susceptível a subalternidades, os ventos sopram generosamente, e também temos um muito próprio e nacional grupo de indignados de direita, o regionalmente famoso Gangue do Anti-Politicamente-Correcto! Palmas para eles! Todas as semanas temos crónicas do Gangue, leitor, mas estes artigos de tão iguais não se distinguem. Os mesmos chavões, as mesmas queixinhas, os mesmos tiques autoritários. Henrique Raposo acampa no Alentejo, Jaime Nogueira Pinto passo a passo tic tic, Rui Ramos no Observador indigna-se porque alguém achou que oferecer uma "barbie" à filha era machista, João Miguel Tavares porque alguém considerou que comer sushi num qualquer restaurante estado-unidense era apropriação cultural. Indignam-se muito com os próprios exemplos idiotas que escolhem, e sobre os quais baseiam a crítica. Que enriquecedor e belo é sentarmo-nos no cadeirão com o neto ao colo a gozar os jumentos escolhidos à hora de almoço! Faz bem ao ego, mas pare crónicas medíocres. Mas atenção, leitor! nem tudo são enfeites. Haverá alguma comichão mais séria? Mais antiga?

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