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Francisco Sousa

“Eu Sou Politicamente Incorrecto!”. A Rebeldia da Naftalina

24.05.2018 15:59 por Francisco Sousa
"É delicioso ver católicos súbditos de John Stuart Mill opondo-se a liberdades básicas de minorias oprimidas para proteger os seus interesses no topo da pirâmide, qual coelho em dia de cheias. Como diria José Sócrates, a vida dá muitas voltas."
Foto: Sábado

Sacudamos o pó, que cheira a naftalina! Em 1990 mal se usava a expressão "politicamente correcto" até que Richard Bernstein escreveu para o New York Times um artigo intitulado "The Rising Hegemony of The Politically Correct". A partir daí, a histeria republicana espalhou-se e sofreu dois milagres: Primeiro transformou-se em ouro, sendo tema principal de numerosos e caros bestsellers anglo-saxónicos com títulos danados como "Fuck Politically Correctness",  "Uncommon Sense" ou "The New Fascists". Que raiva essa, meus senhores. Em milhares de artigos inflamados e centenas de bravas publicações literárias de valor duvidoso, pessoas acusadas do crime de ser politicamente correctas foram comparadas aos jacobinos da revolução francesa, à SS alemã e ao regime de Stalin. E isto sem pegar numa arma. É obra! Só podem ser gente aterradora! Já nos anos 00, o segundo milagre deu origem, em dia de sol radioso, a uma bóia de salvação homologada pelo Instituto de Socorros a Náufragos para uso exclusivo pela nossa população mais velha e perdida de encantos pelo Portugal Glorioso dos Descobrimentos!!

Os casos variam: tanto se acusa um pai de ser politicamente correcto por ser uma alforreca que se deixa insultar pelo filho de 5 anos, se indignam dignos cidadãos por não haver quem "trate da saúde ao Dias Loureiro", como há gente zangada com quem não concorda que um futuro museu lisboeta se chame "Da Descoberta". Mas…quem está zangado afinal? E contra quem? O Larápio ainda procura desesperadamente quem se identifique como sendo defensor do politicamente correcto. Vai a cafés, teatros, repartições de finanças. Mas não encontra. Serão fantasmas? Além disso se existissem, teriam sindicato. A caça à personagem politicamente correcta - sem definição satisfatória nem sujeito voluntário - não tem vida fácil.

Em Portugal, território especialmente susceptível a subalternidades, os ventos sopram generosamente, e também temos um muito próprio e nacional grupo de indignados de direita, o regionalmente famoso Gangue do Anti-Politicamente-Correcto! Palmas para eles! Todas as semanas temos crónicas do Gangue, leitor, mas estes artigos de tão iguais não se distinguem. Os mesmos chavões, as mesmas queixinhas, os mesmos tiques autoritários. Henrique Raposo acampa no Alentejo, Jaime Nogueira Pinto passo a passo tic tic, Rui Ramos no Observador indigna-se porque alguém achou que oferecer uma "barbie" à filha era machista, João Miguel Tavares porque alguém considerou que comer sushi num qualquer restaurante estado-unidense era apropriação cultural. Indignam-se muito com os próprios exemplos idiotas que escolhem, e sobre os quais baseiam a crítica. Que enriquecedor e belo é sentarmo-nos no cadeirão com o neto ao colo a gozar os jumentos escolhidos à hora de almoço! Faz bem ao ego, mas pare crónicas medíocres. Mas atenção, leitor! nem tudo são enfeites. Haverá alguma comichão mais séria? Mais antiga?

Nos anos 90, com a criação de bizarros departamentos de "Estudos Africanos" e "Estudos de Género" em algumas das melhores universidades mundiais surgiram de súbito as primeiras pinceladas do movimento anti-politicamente-correcto. "Estudos Africanos? Mas que é isto?" Nós defendemos, disseram eles, a "Tradição Humanista" (não façam confusão). Esses novos departamentos de então deram origem à formalização estrutural e académica de uma nova área de estudo até então inexistente, os então denominados postcolonial studies, que passaram de uma colecção heterogénea de ideias para uma potente e organizada força crítica dentro da cultura ocidental que alastrou a todo o tecido académico ocidental. E tudo isso nasceu, imagine-se, depois de vários fantasmas maoistas politicamente correctos questionarem o status quo vigente em que todo o universo começava e acabava na Europa sem que houvesse espaço para dúvidas. Aterrador.

Parece impossível olhando para alguns dinossauros dos nossos tempos, mas as ideias transformam-se no tempo! É essa luta constante dos que se sentem postos de parte ou dos que mesmo sendo beneficiários se recusam a mandar tocar a banda num mundo desigual e discriminatório, que produz, após anos de discussões acesas, riscos e discursos, conquistas de minorias. Mas essas mudanças começam muitas vezes com modificações menores, como por exemplo no vocabulário. O Gangue não entende que se hoje ter um filho gay já não é um terramoto familiar como era nos anos 50, essa mudança gradual de paradigma foi acompanhada de uma evolução simultânea dos códigos de linguagem do quotidiano. A linguagem é a voz dos costumes de cada momento. Porque será que nos EUA não se usa a palavra ´Nigger` se ela não dói? Porque será que nenhum partido europeu da extrema direita alguma vez admitiu ser explicitamente racista? Porque será que só em 2018 um vice-presidente do CDS assumiu ser gay? Teria Salazar dado os parabéns ao CDS pelo twitter?

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Que detestável este sentimento de incerteza de estar sujeito a constantes equívocos. Seria o mundo tão mais simples se o cingíssemos a um território pequeno, perceptível, delimitado e previsível. Ah as rosas no jardim, a chanfana da terra, os sinos, as bochechas vermelhas do padre Arsénio! As igrejas são tão velhas que não mudam de rua. Teriam os grandiosos portugueses do Século XVI caravelas capazes de dar voltas de avanço na Volvo Ocean Race? Terão os índios aprendido português por amor aos sonetos de Camões? Será a retórica do anti-politicamente correcto o viagra ideológico dos conservadores?

Palavra a Rui Ramos no Observador:
Para o politicamente correcto, não há nação nem cidadania, mas uma desmultiplicação infinita de identidades através de grupos de queixa e lóbis, todos determinados em obter reparações e privilégios do Estado (…) O seu objectivo, a partir daí, deve ser "representar" a tribo, preencher a quota, e não valer por si.

É delicioso ver católicos súbditos de John Stuart Mill opondo-se a liberdades básicas de minorias oprimidas para proteger os seus interesses no topo da pirâmide, qual coelho em dia de cheias. Como diria José Sócrates, a vida dá muitas voltas. E para acabar em beleza, não podia faltar a caça ao subsídio, costela comum entre qualquer humano bloquista-maoista-politicamente-correcto inexistente. O politicamente correcto é uma ferramenta que protege a abstinência de argumentação, perpetuando o mundo hierarquizado, eurocêntrico e estático em que vivemos até hoje. A diversidade de reivindicações de hoje aumentou como consequência do aumento da diversidade cultural e sexual. Cada grupo não faz mais do que lutar pelo que acha mais importante, como sempre o fez a dominante etnia branca na Europa. A diferença é que até agora a maioria branca fê-lo sempre sem oposição. O que o Gangue denomina de "ditadura do politicamente correcto" é somente a soma de cada uma das preocupações distintas das pessoas que compõem uma sociedade que deixou de ser culturalmente coesa. O problema é que não há nada que sugira que a luta das "novas" minorias seja mais "autoritária" do que aquela travada pelo nossos amigos.

O nosso querido Gangue incomoda-se porque outros conseguem explicar o que os oprime. Como se atrevem? Estes Lordes, sentados em estúdios de televisão com milhões de espectadores ou escrevendo crónicas para milhares de pessoas não tendo capacidade ou coragem de admitir os privilégios que os ajudaram para chegar onde estão, queixam-se que estão a ser "censurados". Que bela ironia. Quem é afinal a brigada do queixume? Por muita vontade que abunde, o Gangue não quer discutir certos assuntos. Percebe-se porquê: Para argumentar honestamente contra os direitos de minorias é preciso assumir como premissa o desprezo por princípios básicos de direitos humanos que não ficariam bonitos se postos a nu sob os holofotes de qualquer humanista razoável. Assim sendo mais vale empacotar tudo, criar um monstro imaginário mas eficiente, enganar os parvos e usufruir dos prazeres da vida bela!

 

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