'Boa continuação!'
Filipa Guimarães Jornalista
01 de janeiro de 2018

"Boa continuação!"

O início da tal "continuação" pode estar a ser um inferno, sabemos lá!

Ouve-se muito por estes dias. Mais do que muito: imenso, demais, até não se poder mais. "Boa continuação" é uma estranha forma abreviada de desejar aos outros que algum ano, dia, feriado, refeição ou mesmo nada seja agradável, partindo do princípio errado que está já estava ser. O início da tal "continuação" pode, pelo contrário, estar a ser um inferno, sabemos lá!

No entanto, é o tempo da duração da dita cuja "continuação" (no norte, "continuaçom") que
me deixa baralhada. Nesta passagem de ano, ao sair do Uber, o ano 2018 não teria nem duas
horas de vida. Porém, o motorista desejou-me à saída : "Continuação de bom ano!". Mas o que é
que ele sabe dos meus primeiros minutos deste ano? Podia ter acabado de me chatear com o
namorado, ter vomitado o champanhe ou coisas bem piores.

Nada disso conta para ninguém porque vivemos na era da ditadura da felicidade. Se não alinhamos, somos esquisitos ou queremos dar nas vistas. Por isso é que fico logo enjoada quando se "abre" a quadra natalícia. No início de Novembro,  todos nos lembramos, estava um calor atípico no país. Nos centros comerciais, essas grandes galerias de decoração natalícia, parecia Verão. Havia criancinhas de manga curta a tirarem fotografias com uma rena falante, num shopping do Porto. Em Lisboa, o presépio cascata tradicional na escadaria monumental do Tomás Taveira (já em si um choque cultural) contrastava ainda com a roupa leve dos visitantes. Que interessa a temperatura? É fazer de conta que estamos no Brasil, sem estarmos,cheios de alergias por causa das poeiras que já deviam ter assentado com as primeiras chuvas. 

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