Notícia

Filipa Guimarães

"Boa continuação!"

01.01.2018 14:24 por Filipa Guimarães
O início da tal "continuação" pode estar a ser um inferno, sabemos lá!
Foto: Sábado

Ouve-se muito por estes dias. Mais do que muito: imenso, demais, até não se poder mais. "Boa continuação" é uma estranha forma abreviada de desejar aos outros que algum ano, dia, feriado, refeição ou mesmo nada seja agradável, partindo do princípio errado que está já estava ser. O início da tal "continuação" pode, pelo contrário, estar a ser um inferno, sabemos lá!

No entanto, é o tempo da duração da dita cuja "continuação" (no norte, "continuaçom") que
me deixa baralhada. Nesta passagem de ano, ao sair do Uber, o ano 2018 não teria nem duas
horas de vida. Porém, o motorista desejou-me à saída : "Continuação de bom ano!". Mas o que é
que ele sabe dos meus primeiros minutos deste ano? Podia ter acabado de me chatear com o
namorado, ter vomitado o champanhe ou coisas bem piores.

Nada disso conta para ninguém porque vivemos na era da ditadura da felicidade. Se não alinhamos, somos esquisitos ou queremos dar nas vistas. Por isso é que fico logo enjoada quando se "abre" a quadra natalícia. No início de Novembro,  todos nos lembramos, estava um calor atípico no país. Nos centros comerciais, essas grandes galerias de decoração natalícia, parecia Verão. Havia criancinhas de manga curta a tirarem fotografias com uma rena falante, num shopping do Porto. Em Lisboa, o presépio cascata tradicional na escadaria monumental do Tomás Taveira (já em si um choque cultural) contrastava ainda com a roupa leve dos visitantes. Que interessa a temperatura? É fazer de conta que estamos no Brasil, sem estarmos,cheios de alergias por causa das poeiras que já deviam ter assentado com as primeiras chuvas. 

O que dita tudo é cada vez mais o comércio, a publicidade, as redes sociais (com anúncios, convém não esquecer que estas são um negócio) e a ditadura do pensamento positivo que distorce a realidade tornando, as pessoas até mais infelizes. É inevitável não nos compararmos aos outros ou eles a nós.

Mas continuando na "continuação": dou-me conta que ela infiltrou-se em quase todas as actividades humanas. Também numa loja, ao fazer o pagamento de uma compra qualquer devolvem-me o talão e troco (que saudades de quando não era preciso os talões...) a funcionária desejou-me "bom resto de fim de ano". "Bom resto?!" Apeteceu me dar um grito, ter um ataque de revoltar, ser Jesus Cristo no templo de Jerusálem, virado mercado. Já me acusaram de ser "uma negativa" por dizer que detesto tanto festejo, consumismo. O que é que querem? Há alturas na vida em que não sentimos motivos para celebrar e nem toda a gente se diverte da mesma maneira. Há algum mal em estar triste ou simplesmente zen? Quando abrem a "época balnear" não andamos todos a desejar uns aos outros: "continuação de bom início de praia" ou "bom resto de mergulho"!

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"Chiça, porra que é demais!" como dizia certo candidato autárquico. Estou desejosa que a "continuação" acabe imediatamente, antes que ela acabe comigo. E não estou sozinha! Não é pelas fotos do Instagram com tudo a rir que se "prova" a felicidade de ninguém. Nem com vídeos de frases bonitas que dizem que nós somos a luz, o céu e sabe-se lá mais o quê.

Eu só queria continuar a ser pessoa! Ao todo, são dois meses e mais uns dias (até aos Reis) a receber os desejos dos outros e a ter que os retribuir simpaticamente. Será que alguém quer que morramos todos felicidade? Eu dispenso tanta. Mas desejo o bem aos meus semelhantes. Só gostava era que as saudações tivessem um "acabamento" mais rápido.


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