O pacto de silêncio
João Paulo Batalha
12 de junho de 2020

O pacto de silêncio

Uma democracia madura num país de gente crescida tem de encontrar maneira de falar de assuntos difíceis, até dolorosos. Caso contrário, afundamos-nos na negação e na mentira.

A forma mais expedita de aferir se há ou não racismo em Portugal, se muito ou se pouco e qual o seu grau de virulência, é levantar a questão em qualquer lado onde haja uma caixa de comentários. Depois recostar-se e testemunhar a enxurrada. Poucos temas geram tanta discussão violenta e tanto discurso de ódio como este – sinal de que temos aqui um gigantesco tabu que nos envenena aos poucos, por cada dia que não temos a coragem cívica de o enfrentar, com humildade, empatia e sangue frio. E, já agora, com dados em cima da mesa, que infelizmente escasseiam num país que recusa recolher informação sobre a composição étnica da sua população – uma política que é em si mesma um sinal do intenso desconforto que o tema suscita, junto das autoridades como junto dos cidadãos.

Sobre o que nos dizem os dados escreveu hoje mesmo Susana Peralta no Público, uma leitura que recomendo vivamente. O Estado português continua a fugir a recolher informação crucial para podermos sequer mapear o problema, mas isso não significa que não existam indicadores. E são alarmantes. Indicadores de preconceito racial na população portuguesa, de discriminação de minorias no acesso ao emprego, à habitação, aos serviços públicos – além, claro, do deserto óbvio de minorias étnicas nos círculos de poder político, económico e cultural. Um primeiro-ministro com raízes goesas e uma ministra da Justiça negra são exceções, não são a regra – aliás, se podemos apontar pelo nome os membros das minorias aceites no círculo da maioria é porque temos um problema. A vida pública é mais branca do que o país onde ela decorre.

Tal como num castelo medieval, são sobretudo três as muralhas de defesa erguidas contra uma discussão fria e adulta sobre o racismo: 1) "Portugal não é um país racista"; 2) "Até pode haver racismo mas não é estrutural e é de todos contra todos"; e 3) "Os ativistas anti-racistas estão a promover o racismo por causa do seu extremismo". Importa transpor cada uma destas muralhas.

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