<font color='cc262a'>CRÓNICA</font> Felizmente há luar
Tiago Salazar Jornalista e escritor
19 de agosto de 2016

CRÓNICA Felizmente há luar

A conversa repete-se, sobretudo entre franceses tomados pelo pavor do terrorismo desaguados em Lisboa à procura de paz. "Têm cá o Daesh?"



A conversa repete-se, sobretudo entre franceses tomados pelo pavor do terrorismo desaguados em Lisboa à procura de paz. "Têm cá o Daesh?". A resposta possível, de quem não frequenta os bunkers do SIS. "Devemos ter, nem que seja na forma de simpatizantes". Um dia, descia pelas ruelas da Mouraria, e dei com uma nuvem de maometanos, a maioria crentes nas virtudes lenitivas do vinho. Pareciam ovelhas de um rebanho a empancar a estrada. Atravessavam a rua, ruidosos, tresmalhados, e desapareciam por uma esquina como se caíssem num poço. Ao cruzar o beco, reparei numa porta sem batente, apenas encimada por um escrito em nome de Alá. Atrevi-me a espreitar e não fosse o diabo tecê-las levei o meu Corão de bolso que sempre me acompanha na mala, a par de um terço e do kamasutra. Dois fiéis encorpados vieram ao meu encontro e perguntaram-me se estava perdido com um sotaque da Musgueira. Logo disse estar ali para mostrar as glórias passadas dos árabes na velha Olissipo e como nada superava a Mouraria em feitos, além de frisar o bom gosto do Castelo de S. Jorge, cujas primeiras pedras tinham o selo de Maomé e Arabi. Os árabes de paramentos tingidos e barbas negras em cone desconheciam Arabi e Avicena, mas ao fim de um tempo de conversa mansa riram-se dos meus molares de ouro (postiços) que sempre uso nas campanhas por territórios ocupados para me distinguir como o rei dos ciganos. 

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Tópicos tiago salazar