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António Ventinhas

Justiça, racionalidade, política e futebol

12.09.2018 10:33 por António Ventinhas
O Direito é uma ciência ensinada nas faculdades há muitos séculos. Cada uma das profissões forenses tem estágios longos que apetrecham os juristas para o exercício prático.
Foto: Sábado

O Direito é uma ciência ensinada nas faculdades há muitos séculos.

Cada uma das profissões forenses tem estágios longos que apetrecham os juristas para o exercício prático.

A formação jurídica aprofundada permite uma melhor apreciação dos factos e interpretação das normas jurídicas.

A análise e interpretação das normas e factos seguem regras definidas por ilustres professores de diversas gerações.

O Direito é uma disciplina muito racional, mas como o mesmo pode ser aceite em áreas onde domina o irracional?

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A política e o futebol são dominados muitas vezes pela irracionalidade e parcialidade.

Numa entrevista, gracejando, um conhecido político disse que nunca viu um penalti ser bem marcado contra o seu clube.

Conheço pessoas que afirmam sistematicamente, em todos os jogos, que o árbitro "roubou" a sua equipa preferida.

Nos debates televisivos as mesmas imagens têm interpretações diferentes consoante o adepto do clube que as comente.

Para um adepto ferrenho, um penalti marcado contra a sua equipa é sempre um "roubo" do árbitro ou uma decisão, no mínimo, altamente duvidosa.

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A política segue muitas vezes o mesmo critério.

Se um acusado for de uma determinada área politica há tendência para se organizarem facções contra e a favor, ainda que não conheçam o processo.

O caso de Lula da Silva no Brasil é um exemplo paradigmático desta situação.

Para a generalidade da população os processos em causa pouco interessam. Uma parte do Brasil acha que Lula é um corrupto e quer vê-lo na prisão, a outra facção acha que é tudo uma cabala dos seus inimigos para o impedirem de voltar a ser presidente.

As visões extremadas no futebol e politica cruzam-se muitas vezes com processos judiciais e estas nunca aceitarão qualquer decisão ainda que transitada em julgado.

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Há partida um adepto fanático nunca aceitará uma decisão contra o seu clube, ainda que possam existir provas concludentes.

Numa altura em que é público que alguns dos principais protagonistas desportivos nacionais estão a ser investigados, a contestação às decisões do Ministério Público e judiciais correm o risco de serem apreciadas pelo mesmo prisma que um lance duvidoso do último domingo.

Os processos que envolvem destacadas figuras políticas padecem do mesmo mal.

Os comentadores de uma área mais à direita fazem um ataque feroz aos políticos de esquerda que se encontrem a ser investigados ou julgados e vice-versa.

Se alguém tem um pensamento extremamente parcial quanto a um determinado assunto, não poderá ter uma visão descomprometida com o que se passa. Quanto maior a paixão, mais difícil será a análise dos factos.

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Nesta guerra de paixões, a administração da justiça é extremamente difícil, pois desagradará sempre a uma das facções em confronto.

Para muitos, quem profere uma decisão judicial desfavorável ao partido ou clube do seu coração está a soldo do adversário.

Neste contexto a aceitação comunitária de determinadas decisões judiciais é uma missão quase impossível, o que fragiliza a Justiça.


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