Notícia

André Silva

O Rui não quer saber dos rios

21.02.2018 15:52 por André Silva
Não me surpreendeu que o novo líder do principal partido da oposição só tenha falado de árvores e de florestas quando invocou uma metáfora para justificar determinadas falhas éticas decorrentes da vida interna do partido.
Foto: Sábado

Uma vez que o novo líder do PSD e as infâmias futebolísticas repartiram os holofotes mediáticos dos últimos dias, tive oportunidade de fazer várias visitas guiadas ao discurso de 18 páginas A4 proferido por Rui Rio no congresso com o lema "Primeiro Portugal". Não me surpreendeu que o novo líder do principal partido da oposição – que se quer "apresentar aos portugueses como uma alternativa forte e credível a esta governação" e que tanto referiu a nobreza da política – só tenha falado de árvores e de florestas quando invocou uma metáfora para justificar determinadas falhas éticas decorrentes da vida interna do partido.

A citação de uma frase de Francisco Sá Carneiro "O Homem é a nossa medida, nossa regra absoluta e nossa meta" – que terá tido a sua relevância no contexto histórico e social em que foi proferida, resume muito bem quais são as prioridades que orientam a actividade dos "grandes partidos".

Muito se fala das perigosas consequências para as democracias modernas da alienação política, principalmente entre os jovens, mas aqueles que estão em posição de impactar significativamente o status quo continuam a optar por defender um teatro de operações políticas arcaico. Um discurso antropocentrista, que reforça crenças nocivas de que a espécie humana controla o planeta e de que está acima das outras formas de vida subjugando-as.

É perturbador constatar que as grandes máquinas partidárias e os seus líderes ainda não entenderam que precisam de se adaptar aos novos tempos, que nos desafiam a todos a alterar as nossas crenças fundamentais sobre a Terra, as sociedades e as culturas. Todas as actividades humanas são neste momento uma questão ambiental, mesmo aquelas que foram estabelecidas por Rui Rio como políticas públicas prioritárias. As questões relacionadas com a natalidade ou com o sistema de pensões e a crise da segurança social, a educação, com problemas estruturais de uma mentalidade resistente à mudança, vão além das "simpatias" que o líder possa dizer para consolar os professores à beira de um ataque de nervos. Na área da saúde, a redutora preocupação do discurso binário dos grandes partidos é se deve ser pública ou privada. Em nenhum momento se ouve falar de fortes investimentos na prevenção, no estímulo para a alteração dos hábitos de consumo dos portugueses, por mais saúde e melhor qualidade de vida. A ecologia não é um conceito abstracto que se invoca de acordo com determinados interesses estratégicos. A ecologia é uma forma de estar na vida e nas relações connosco próprios e com tudo o que nos rodeia. Ao contrário do que o novo líder do PSD veio reforçar, a ecologia deve ser o motor do nosso progresso económico e as tecnologias e as novas gerações estão sintonizadas com esta realidade.

E quando começarmos a ser reconhecidos por este avanço na consciência colectiva, as exportações e o investimento vão atrás. 

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A compreensão global dos impactos das nossas acções na crise do aquecimento global e da destruição dos ecossistemas é uma realidade partilhada por cada vez mais pessoas e não vai ser possível continuar a ignorá-la em qualquer discurso político responsável. Reformas como a descentralização são precisas, sim, mas não podem continuar a excluir visões ecologicamente mais conscientes e alimentar a ilusão de que controlarmos tudo o que está à nossa volta. Vejamos o Rio Tejo. Um ínfimo exemplo. Mas os rios não vão às urnas.


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