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Ana Reis

O preconceito da ciência moderna

12.04.2016 20:44 por Ana Reis
No mundo desenvolvido, a igualdade de direitos entre homem e mulher é uma história de profundas mudanças e conquistas. Mas o que é ainda escondem esses sucessos?
Foto: Sábado

No mundo desenvolvido, a igualdade de direitos entre homem e mulher é uma história de profundas mudanças e conquistas. Mas o que é ainda escondem esses sucessos?

Vivemos numa época excepcional em que os direitos das mulheres são impulsionados por acções conjuntas de governos e organizações. Mas o fosso salarial entre homens e mulheres continua a ser a realidade escondida por trás do optimismo. Na União Europeia, as mulheres ainda ganham, em média e pelo mesmo trabalho, menos 16% do que os seus colegas do sexo masculino. Como consequência, e sem que tenham consciência disso, as mulheres estão a trabalhar gratuitamente quase 2 meses por ano. Além disso, o fosso salarial aumenta com a idade da mulher, exaltando o risco de pobreza na velhice.

Mas este é apenas um sintoma de algo maior e bem mais difícil de medir. Este fosso é o resultado de um preconceito imperceptível que ainda permeia a forma como contratamos indivíduos e gerimos organizações. Um preconceito ao qual nem a própria ciência tende a escapar.

A nível mundial, 28% dos investigadores são mulheres, um número que não é muito diferente da realidade europeia (33%). Mas mesmo em países com altos níveis de desenvolvimento socioeconómico (Holanda, França e Alemanha) a proporção de mulheres na ciência continua a ser desproporcional e surpreendentemente baixa. E países do Sudeste Europeu, Caraíbas, América Latina e Ásia Central formam a curiosa vanguarda da igualdade de géneros. Na Europa, a Turquia é o líder impensável, mas não pelas razões mais óbvias. Isto porque, na Turquia, a carreira académica ainda é considerada uma ocupação apropriada para as mulheres, em detrimento de carreiras no sector industrial. No extremo oposto encontramos países como a Etiópia, a Arábia Saudita, o Togo e o Japão, cuja fraca presença de mulheres na ciência é fortemente influenciada pela percepção que estas culturas têm sobre o papel das mulheres. Apesar de alguns números desencorajadores, a tendência global é clara: existem cada vez mais mulheres a fazer investigação. Mas há uma área onde estes números se mantêm largamente inalterados desde 2002: na liderança.

A própria Comissão Europeia para Investigação, Inovação e Ciência identifica a fraca presença de mulheres em posições de liderança como o maior problema da ciência moderna. Dados de 2012 mostram que, apesar de 33% dos investigadores serem mulheres, estas ocupam apenas 8% dos cargos de professor universitário na área das ciências e tecnologias e apenas 10% dos cargos de liderança das universidades europeias. As mulheres têm assim menos probabilidades de obter financiamento para os seus projectos de investigação e menos probabilidades de se manterem competitivas a longo prazo. Entre as muitas consequências, a mais notável é que são poucas as mulheres que persistem no mundo académico tempo o suficiente para serem reconhecidas por isso. Por causa disso mesmo, até aos dias de hoje, apenas 3% dos Prémios Nobel foram atribuídos a mulheres (47 no total e apenas 2 na área de Física).

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No início da carreira científica existem poucas diferenças entre homens e mulheres. As diferenças surgem depois disso. Um estudo de 2006 no Reino Unido mostra isto mesmo: no primeiro ano de doutoramento, 70% das estudantes do sexo feminino diziam querer uma carreira na ciência. No terceiro ano, este número tinha descido para os 37%, enquanto a percentagem de homens que planeavam tornar-se investigadores a tempo inteiro se mantêm quase inalterada.

As mulheres parecem estar a desistir mais facilmente do que os homens. Mas porquê?

Uma das causas é o facto de, para as mulheres, o pico da dedicação na carreira científica colidir com o pico de dedicação na vida familiar. Neste dilema as mulheres continuam, ainda hoje, a decidir abdicar das suas carreiras, tornando a fuga de cérebros femininos inevitável.

Um estudo publicado na revista American Scientist confirma este mesmo cenário. Antes de terem filhos, a carreira científica das mulheres era comparável à dos homens; contudo, as exigências de gerir uma equipa de investigação tornam-se incompatíveis com as responsabilidades parentais das mulheres, algo que parece não afectar os seus colegas do sexo masculino. Para além disso, um estudo da prestigiada revista científica PLoS ONE mostrou que as investigadoras têm menos filhos que os seus colegas do sexo masculino, e menos do que aqueles que gostariam de ter.

A escassez de mulheres na liderança científica é o reflexo das escolhas que estas têm feito ao longo de décadas. E este fenómeno, infelizmente, não é exclusivo da ciência, como o notou Sheryl Sandberg na sua audaz palestra no palco das famosas TED talks. Por cansaço, acumulação de responsabilidades e, acima de tudo, falta de confiança, as mulheres estão a desistir mais rapidamente do que os homens, o que faz com que sejam eles a agarrar uma maior fatia de oportunidades.

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Eu acredito que iniciativas estruturadas são uma parte importante da solução para redefinir a cultura que desvaloriza a contribuição das mulheres para a ciência. Acredito no poder das quotas, num maior acesso a serviços de educação infantil e na criação de programas de mentoring que dêem novas ferramentas às mulheres para que possam lidar com os seus desafios particulares de formas criativas. Mas como a própria Sheryl Sandberg, também acredito no poder das decisões pessoais.

Hoje temos a oportunidade única de encarar o avanço na igualdade de géneros, não como um jogo de poder, mas como o momento de transformação de mentalidades. Os homens devem consciencializar-se do preconceito milenar escondido que ainda influencia a forma como gerimos as nossas instituições e contratamos indivíduos. Todos somos preconceituosos nalgum nível e nem sempre os nossos preconceitos são intencionais e conscientes. O primeiro passo para lidar com eles é reconhecer que estão lá.

E as mulheres devem perceber que, por vezes, somos as maiores inimigas de nós próprias. Somos educadas para acreditar nas nossas capacidades inatas, mas não somos incentivadas a levar essas capacidades ao seu limite. Somos elogiadas por obter e manter bons resultados mas não somos incentivadas a arriscar mais. O fosso salarial e a falta de mulheres na liderança é resultado do mesmo preconceito insidioso que ainda existe na ciência moderna. Mas é também o resultado daquilo que os nossos educadores nos têm transmitido, daquilo que temos dito a nós próprias ao longo de anos, das expectativas dos nossos colegas e daquilo que dizemos às nossas mães, tias, sobrinhas e filhas.

E agora que sabemos tudo isto, temos o poder de quebrar este ciclo.

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Ana Reis é investigadora na área da microbiolgia, doutoranda na University of Applied Sciences and Arts Northwestern, na Suíça, em colaboração com a Universidade do Porto, e formada em jornalismo científico pela Universidade Carlos III de Madrid


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