A Porteira
21 de fevereiro de 2020

A Otanásia

E, verdade seja dita, quer a gente quer ir dar um salto ao supermercado para ir buscar mais um pacote de arroz para lhe juntar atum para o almoço dos netos, e lá estão uma catrefada de velhos a empatar a gente. Parece que fazem de propósito.

Pois que foi ontem aprovada no Parlamento a otanásia. Que é, se eu bem percebi, agora poderem matar as pessoas quando elas já estão assim mais a cair da tripeça. Não acho mal, que Deus me perdoe. Mas isso digo eu agora, que ainda tenho forças e braços para acartar com quatros sacos de compras pela ladeira acima, e para passar a ferro roupa de duas semanas dos três marmanjos que tenho cá em casa. E, ainda para mais, com a tábua escangalhada, que me fica pelos joelhos e dá cabo das costas. Quando um dia eu lá chegar a velha, pode ser que mude de ideias. Mas cada um puxa a brasa à sua sardinha, e agora, por acaso acho bem.

E, verdade seja dita, quer a gente quer ir dar um salto ao supermercado para ir buscar mais um pacote de arroz para lhe juntar atum para o almoço dos netos, e lá estão uma catrefada de velhos a empatar a gente. Parece que fazem de propósito. Para além de arrastarem os pés, coitados, ainda ficam à espera que a menina passe as compras todas para sacar do porta-moedas, como se fosse uma grande surpresa terem de pagar no fim. Credo. A gente queremos andar com um bocadinho menos de vagar na rua, e lá está sempre um velhinho de andarilho, que ainda por cima, quando sente alguém a aproximar-se por trás, lá estaca no meio da rua para se virar para trás e ver quem é, não fosse dar-se o caso de ser a morte para o vir buscar. E apanhar o autocarro de manhã? Lá temos a gente de esperar meia hora por cada velhinha, a trepar o corrimão dos degraus como se estivessem a galgar a serra da Guarda para a Covilhã. E ir à farmácia? Ou ao posto médico? É certo e sabido que lá estão eles, de receita na mão, a aviar pra cima de quarenta caixas de remédios, que mal comparado, também não servem para nada, que aquilo melhoras já não tem.

E o velho é uma pessoa que também entope muito as urgências dos hospitais. Por isso, a meu ver, talvez não seja má ideia a gente dar cabo deles, assim de uma maneira mais humana. Afinal é isso que é a otanásia, não é? Matar os velhinhos. Pelo menos, foi o que eu li nos cartazes daqueles gaiatos que estavam ontem à porta do Parlamento. Não matem os velhinhos, era o que lá estava escrito. Deixem-os viver. Ora os miúdos, coitados, aquilo deve-lhes fazer pena é mais os avós, que acabam por ser muito agarrados aos netos.

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