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A Porteira

O prédio do Doutor Robles

27.07.2018 18:45 por A Porteira
Eu cá sou franca: eu fui das que votei no Doutor Ricardo Robles prá Cambra Munincipal de Lisboa. Ai pois votei!
Foto: Sábado

Eu de política não percebo nada, mas a verdade é que ele sempre lava a vista, olá se lava. Até parece um galã das novelas da Globo.

Não é que o Doutor Medina esteja mal apanhado, porque não está. Mas pra novela, lembra mais assim aqueles que entram lá mais prá frente e que fazem de advogados da vilã. São assim bonzinhos, apesar de alinharem numa ou noutra marosca, e a rica má passa a vida a gritar com eles: «estrupício», «anta» e «me traga um café» e essas coisas que elas dizem no Brasil. E as mais das vezes, nem aparecem no último episódio. 

Já o Doutor Ricardo... é outra loiça.

É daqueles galãs que no fim ficam com o controlo accionista das empresas, e com a filha dos ricos, e com o carro, e com a casa, com as jóias e com a casa de campo. E com a lancha, o avião e as trazentas mil cabeças de gado. E com os hotéis, a cobertura no Rio, a fazenda em Minas e as fábricas em São Paulo. E mais o diabo a sete.

Olha, e mesmo na vida real, também diz não está nada mal.

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Li hoje no jornal que parece que comprou um prédio em Alfama aqui há uns anos por um xis e que agora anda a ver se o vende por um xis vezes xis. Olha, mais uma razão para eu votar nele outra vez. Que a gente precisamos é de gente assim, que não há nada pior que um político pobrezinho, daqueles que não põe açúcar no café, mas que leva dois pacotinhos para casa todos os dias, lá da cafetaria do Parlamento. Dessa gente, o melhor é fugir.

Ainda hoje na padaria, andei a entrevistar prá minha coluna as mulheres-a-dias aqui da zona e que costumam ir ao pão pela fresca. E as opiniões sobre este tema vareiam muito.

Há as que dizem que é uma pouca vergonha, que isto é os políticos a dizerem uma coisa e a fazerem outra, como sempre. Que lembra a história daquele deputado que é contra a saúde ser um negócio e que depois foi fazer uma TAC ou lá o que foi ao Hospital da Luz. E até já tivemos um primeiro-ministro que dizia que tinha um apartamento de luxo em Paris e depois descobriu-se que afinal de contas morava era numa prisão.

Mas também ouvi quem acha que não vem daqui grande mal ao mundo. Ora, se ele comprou o prédio, se o pagou, se lhe fez obras, ora pois não é crime nenhum vendê-lo, dizem elas.

O meu ver é este: o Doutor Ricardo já disse que comprou o prédio mais a irmã. E que fizeram obras, que aquilo estava tudo a cair. Não diz se foram eles que fizeram as obras ou se pagaram a alguém, o que também encarece a coisa. Também já disse que não pôs ninguém na rua. Os inquilinos é que quiseram sair. Deve de ter sido derivados ao barulho das obras, com certeza. Só quem nunca acordou ao um sábado às oito da manhã com um martelo pneumático a arrancar azulejo de uma casa de banho é que não sabe o que custa. Portantos, até ver, está tudo bem.

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Agora o busílis é que diz que o Doutor Ricardo lá na Cambra fala muito contra umas coisas que agora há que é a gentrificação e a especulação imobiliária.

Pois como não sei o que isso é, fui ver à net, que é onde está tudo o que a gente precisamos de saber.

E passo atão a explicar, para quem não sabe: Gentrificação, por o que eu percebi, é por exemplos a gente pegarmos num tanque de lavar a roupa daqueles dos antigos, de pedra, pormos-lhe um vidro por cima e mais duas velas e uma gerbera e agora prontos, é uma mesa de desáine. Olha, ou como foi aqui de uma taberna que havia aos anos na rua, que era a Fonte dos Passarinhos e que um dia o dono, que era o senhor Antunes, ganhou a taluda e a boa da mulher, que fazia unhas num salão no Centro Comercial da Portela, quis armar mais ao fino e transformou aquilo numa casa de chá. De modos que agora se chama La Fontaine des Oiseaux. Os bêbedos é que são os mesmos, que aquilo nunca pegou muito bem, agora bebem é o carrascão por umas chávenas de chá, que eles deixaram de ter copos de três. Ou seja, gentrificou. E não foi pouco. Mas cá pra mim, gentri-ficou na mesma. Deus me perdoe.

Agora a especulação imobiliária é que é um bocadinho mais difícil de a gente perceber. O critério vareia muito, conforme seja uma pessoa de esquerda a falar de uma pessoa de direita, ou uma pessoa de direita a falar de uma pessoa de esquerda, ou uma pessoa de esquerda a falar de uma pessoa de esquerda, ou uma pessoa de direita a falar de uma pessoa de direita. De modos, que ficamos todos na mesma.

Mas, assim em português é mais ou menos a gente comprarmos uma bata nos ciga... Quer dizer, nos chin... Bom, comprarmos uma bata num sítio qualquer, que eu não quero arranjar chatices.

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E depois, a gente pegarmos na bata, pormos-lhe assim uns botões dourados daqueles com uma âncora, e depois vendermos a bata como se fosse um vestido Xanel. Só que é isto, mas com casas, que é o que imobiliário quer dizer. É como a mobília, mas com um «i» antes. E o «i» em grego antigo deve querer dizer «que não se mexe», digo eu.

Bom, realmente, pelo menos da minha janela, isto é um bocadinho o que o Doutor fez. Crime não é, a gente vendemos por o preço que nos queiram pagar. Eu por exemplo, quando faço croquetes para fora, pois para uma festinha de anos de uma criança, pois para um casamento, pois para um velório, se mos querem comprar por setenta cêntimos a unidade, eu não vou vender a cinquenta. Nem eu nem vocês.

Mas também é verdade é que isto de se queixar lá na Cambra da gentrificação e da especulação imobiliária e depois comprar um prédio podre, pô-lo assim mais pra chique com a ideia de depois vendê-lo por uns milhões me faz lembrar aquela minha prima que é vegetariana, mas que come tudo assim à base do atum. É verdade que ela é meia lenta da cabeça e deve de achar que as latas de atum dão nas árvores. Mas mesmo assim... Isto vai da consciência de cada um, não é?

Agora se o Doutor Ricardo se devia de demitir ou não, isso já depende.

Depende de quem é que iam pôr no lugar dele. Ainda pra lá mandam algum camafeu. E de gente feia já está a vida cheia, credo.

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Bom, e agora me despeço, que a lázanha de restos da semana não se faz sozinha e eu cá não tenho prédios em Alfama. Que é mesmo assim.

Com licença.


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